Começou no dia 9 de novembro passado,  no museu de Tecidos (Le Musée des Tissus) em Lyon, cidade mais conhecida por virtudes como a capital da gastronomia francesa, uma bela exibição em colaboração com o Musée Yves Saint Laurent em Paris, destinada a render homenagens ao gênio do  pret-à porter  e suas relações com a indústria produtora de seda local, que há quase quinhentos anos domina processos que vão desde a produção até a estamparia, passando pela tecelagem e acabamento.

Nomeado pela própria Gabrielle Chanel como seu “herdeiro”, no que se refere à compreensão da importância da liberdade, protagonismo e poder feminino por meio da vestimenta, estilo que imprimia às suas criações, da mesma forma que Mademoiselle fez no começo do século XX, Yves Saint Laurent é considerado o maior dos estilistas do pós guerra pela capacidade de romper com  padrões da época, trazendo novidade e frescor à moda contemporânea.

Amava o movimento das ruas no qual não parava de se inspirar para mudar rígidos paradigmas vigentes. “Vestir-se é um modo de vida”, dizia ele. Ao observar as mudanças na sociedade, percebeu que um maior número de mulheres tinha o desejo de se vestir de maneira elegante, mas acessível, e que as normas rigorosas impostas pela alta costura haviam se tornado obsoletas. Decidiu criar a Saint Laurent Rive Gauche, se tornando o primeiro estilista a dar seu nome a uma boutique de pret-à-porter. Sucesso imediato e absoluto, e modelo copiado pelos grandes nomes da moda que o sucederam.

Saint Laurent sempre foi um artista visionário, sensível às vicissitudes de seu tempo, conhecedor e apaixonado pelo corpo feminino e suas formas. Um gênio a serviço das mulheres, como descreveu a revista L´Express por ocasião de seu falecimento em 01 de junho de 2008, e que sabia como nenhum outro empoderá-las por meio de suas belíssimas criações. Pierre Bergé, seu eterno companheiro definiu: enquanto Mademoiselle Chanel ofereceu às mulheres liberdade, Saint Laurent conferiu-lhes poder.

Em um momento de mudanças e enorme efervescência cultural e social no mundo, mas, quando as mulheres ainda eram proibidas de portar calças compridas, Saint Laurent nos brinda com o inesquecível smoking, imortalizado nas icônicas e provocativas fotos de Helmut Newton, tiradas na Rue Aubriot, bairro boêmio do Marais, em Paris.

A exposição tem como objetivo destacar os fortes vínculos que uniram Yves Saint Laurent com seus fornecedores de Lyon, e destaca a enorme importância que a escolha criteriosa dos tecidos representava no trabalho do haute couturier.

A mostra brinda o espectador com uma bela jornada de quatro etapas que permite entender as fases da criação de uma peça de alta costura. Escolha de tecidos (demonstração de como distinguir um tafetá, musseline ou cetim) e cores, desenhos, fotos, trabalhos na oficina …O processo criativo do estilista é revelado por meio das entrevistas, dos croquis dos desenhos, que testemunham a genialidade do criador da transgressão na alta costura. Provocador, anarquista e libertário, posou portando apenas seus indefectíveis óculos para a campanha de promoção de seu perfume masculino. Um escândalo para a época, mas, uma imagem eternizada.

 

 

Reconhecido pelos belíssimos eventos sobre os grandes titãs da moda, o Museu dos Tecidos de Lyon presta merecido tributo tanto ao gênio do artista Saint Laurent como à indústria local, conhecida e respeitada mundialmente pelo savoir-faire, patrimônio valioso de quase cinco séculos da bela cidade, que também ostenta o menos conhecido título de capital mundial da tecelagem de seda.

Em tempos de banalização do conhecimento, obsessão pelo sucesso instantâneo, surgimento de intelectuais de mídias sociais, um evento que celebra a genialidade de criação humana e a moda como expressão da cultura, da arte, enaltecendo a importância da preservação do valioso trabalho artesanal, é mais do que bem-vindo.

Ana Fábia R. de O. Ferraz Martins

Advogada, especialista em Direito e Negócios Internacionais