JOÃO PERASSOLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em 11 de novembro, um dia depois de o indígena Evo Morales renunciar à Presidência da Bolívia, oficiais de uma delegacia de polícia de Cochabamba foram filmados removendo de seus uniformes o emblema que simboliza os povos indígenas dos Andes. Em seguida, cortavam o símbolo em pequenos nacos.
Nas roupas dos agentes, a wiphala aparece no mesmo pedaço de tecido em que está a bandeira da Bolívia. Assim, os policiais recortavam o emblema indígena e recolocavam a insígnia pela metade, desta vez apenas com a bandeira vermelha, amarela e verde do país.
Mas, assim como a bandeira tricolor -adotada em 1851, duas décadas e meia após a independência boliviana do jugo espanhol-, a versão wiphala é reconhecida na Constituição de 2009 como símbolo oficial do Estado e está presente em diversas manifestações em apoio ao agora ex-presidente boliviano.
O status de símbolo de Estado foi garantido por Evo, primeiro presidente indígena do país, de descendência aimara, em seu primeiro mandato.
A wiphala tem o formato de um mosaico colorido, composto por 49 quadradinhos nas cores do arco-íris dispostos em uma grade de 7×7. Cada linha e cada coluna da bandeira tem todas as sete cores –vermelho, laranja, amarelo, branco, verde, azul e violeta.
O indigenista e antropólogo da ESPM Fred Lúcio afirma que as comunidades indígenas dos Andes pensavam a existência a partir de três elementos -ar, terra e subsolo- conectados pelo arco-íris representado na bandeira.
Cada cor tem um significado: o vermelho representa o planeta Terra, o laranja, a sociedade e a cultura, e o verde é um emblema da economia e da produção andinas, símbolos das riquezas naturais da região.
Quando vistas em conjunto, as sete cores “organizam a sociedade comunitária e harmônica dos Andes”, informa o site do Ministério da Defesa boliviano.
A origem do design da bandeira que virou símbolo da resistência indígena é incerta. O governo diz ser um “exagero” considerar que ela tenha surgido na Era Tiwanaku, antes do Império Inca, mesmo que tenham sido encontradas cerâmicas decoradas com quadrados coloridos cerca de 200 anos antes de Cristo em um sítio arqueológico próximo a La Paz.
O mais provável é que ela tenha surgido de forma incipiente a partir da conquista espanhola, em meados do século 16, pois “o formato quadrilátero de faixas têxteis para ondular ao vento é uma tradição da Europa”, informa o site do ministério.
Durante sua história, a bandeira wiphala teve variações tonais que representavam diferentes povos indígenas do Peru, do Equador, da Bolívia, do Paraguai e de partes do Chile e da Argentina. As cores, contudo, sempre foram as mesmas.
A versão atual surgiu com as mobilizações de sindicatos indígenas na década de 1970, quando etnias historicamente marginalizadas lutavam por mais reconhecimento.
Seu desenho foi feito em 1979 pelo historiador boliviano de etnia aimara Germán Choquehuanca, em um movimento do Estado para padronizar um elemento da cultura popular que sofria variações regionais, afirma Lúcio.
Símbolo aimara, a bandeira também foi adotada pelas outras 35 etnias indígenas bolivianas e entrou para a iconografia de países vizinhos. A Bolívia é o único país a empregá-la de maneira oficial.

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