Você não sabe com quem está falando

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por Claudia Queiroz

Parece até uma frase petulante muito ouvida na infância, mas num passado recente eu mesma disse, e foi reveladora. Mostrar seu chão para alguém é algo tão integro e honesto, que revela de que material você foi feito.

Todos nós temos cicatrizes. E pasmem, no meu caso, sou melhor com elas! Cada risco que ganhei na geometria da minha alma, dos mais profundos aos superficiais, trouxe um novo significado de rumo, expectativa, olhar… Foi um convite dolorido para aprender a enxergar um mundo inteiro que eu não conhecia dentro de mim.

É comum perceber como as pessoas julgam a vida alheia. No trânsito, na fila do banco, passeando no shopping ou lendo o noticiário, todos têm uma espécie de impressão formada sobre alguém que não conhece, mas que dependendo da ocasião, é como se fosse íntimo seu…

Já parou para pensar em quanta verdade existe no que é dito, repetido, ouvido? Quem você seria tendo sua moral dissecada? Experimente colocar o dedo numa ferida sua, por alguns instantes, mesmo que em pensamento, …, e tente respirar.

Mas se esse exercício for muito complicado agora, imagine-se com um bolo de noiva no banco de trás do seu carro. E você está atrasado, dirigindo apressado. É para o casamento da sua irmã! Toda a família está esperando. Levar este bolo é a sua maior responsabilidade neste momento.

A cerimônia vai começar em 30 minutos. Só falta você! E com um olho na encomenda e outro no trânsito, seu celular não para de tocar. Você leva uma fechada aqui, passa em outro sinal amarelo logo ali, não pede passagem para virar à direita e…

Será que o bolo vai chegar inteiro? Quantos xingamentos, buzinas e até riscos de acidentes ocorreram porque você estava com os nervos à flor da pele e não podia falhar?

Empatia é uma das características mais valorizadas nas relações humanas. Faz parte da “inteligência emocional”. Exatamente o que diferencia você de um animal irracional. Quanto do seu cérebro você consegue usar para saber enfrentar situações complicadas? E convenhamos, todos os dias recebemos oportunidades de superação.

Comece então aceitando suas marcas para poder reconhecer a imperfeição do outro. Se tudo muda o tempo todo, interprete a vida como um grande painel, cheio de pontos em forma de pixels, que você está pintando. Em cada detalhe, sua identidade deixa cores, sombras, vazios, que no final da vida, mostrarão a sua verdadeira cara.

*Claudia Queiroz é jornalista.