As relações econômicas e diplomáticas da Austrália com a China estão estremecidas há quase dois anos, e a reeleição da coalizão conservadora nas eleições parlamentares da Austrália no sábado (18) pode agravar este quadro -ou, no melhor cenário, mantê-lo como está.
De modo geral, o governo australiano tenta lidar com a crescente influência chinesa na região do Pacífico Sul, mas o quadro é delicado porque a China é o principal parceiro comercial da Austrália, sendo o destino de aproximadamente 30% das exportações do país, no valor de US$ 183 bilhões anuais.
A situação entre os lados vem se complicando desde agosto de 2017, quando o ex-premiê Michael Turnbull -do partido Liberal, parte da coalizão reeleita junto ao partido Nacional- proibiu a participação das empresas de telecomunicação chinesas Huawei e ZTE na instalação da tecnologia 5G na Austrália. Turnbull alegou potenciais interferências na segurança nacional.
Além disso, Canberra se recusa a assinar oficialmente a participação na Belt and Road Initiave, o maior projeto de Xi Jinping para ter acesso a mercados internacionais, informalmente conhecido como Nova Rota da Seda. Isto levou Pequim a fazer acordos com estados australianos individualmente, como é o caso do compromisso firmado com o estado de Victoria em novembro de 2018.
Em resposta, a China baniu importações de carvão australiano para o porto de Dalian e promete estabelecer um limite de compra do mineral para no máximo 12 milhões de toneladas até o final deste ano, segundo informações da agência Reuters.
O ministério das Relações Exteriores da China, por meio do porta-voz Geng Shuang, disse que o fluxo de importações continuava normal, mas que as autoridades alfandegárias do porto endureceram as checagens de segurança de cargas vindas de fora.
A Austrália é a maior exportadora de carvão para geração de energia do mundo e, embora as vendas para o porto de Dalian signifiquem apenas 1,8% do total do mineral exportado pelo país, a sanção chinesa é significativa por apontar para a deterioração dos vínculos.
Além do carvão, o professor Alexandre Uehara, coordenador do Grupo de Estudos sobre Ásia da USP, diz que a China, segunda maior economia do mundo, poderia facilmente prescindir do minério de ferro e da carne bovina que compra da Austrália. “A Austrália não tem cacife para dificultar as exportações para a China, pois é menor.”
Por outro lado, Uehara pondera que, para o regime de Xi Jinping, “não é interessante ter tensões com seus parceiros comerciais”, já que a balança comercial tem peso forte no PIB chinês -em 2017, representou quase 40% da riqueza do país. “Quanto menos ruído com os vizinhos, melhor”, completa.
De acordo com o professor, haveria também certa indisposição ideológica australiana, de posicionamento político mais à direita e alinhado à Donald Trump, em relação ao governo chinês. Mas ele completa que essa tensão recai mais sobre o lado australiano, e não importa tanto para Xi Jinping, que Uehara considera pragmático.
A simpatia australiana aos Estados Unidos ficou explícita poucos dias antes das eleições, quando o premiê reeleito Scott Morrison, em declaração sobre as recentes tensões comerciais entre Washington e Pequim, referiu-se ao país como um “amigo”. Já a China foi definida como uma “cliente”. “Você não precisa escolher um lado. Você fica do lado dos seus amigos e também de seus clientes”, disse.
Os próximos três anos, período de seu novo mandato, serão decisivos para o futuro da relação com a China.

Foto: news.com.au