VINHAS VELHAS. O QUE SÃO E SUAS INFLUÊNCIAS NO VINHO

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Ao nos aprofundarmos cada vez mais no mundo vínico, mais surpresas encontramos em sua história nos mostrando que o simples ato de degustarmos uma taça de vinho envolve muita tradição e conhecimentos. Consultamos alguns enólogos do mundo vínico para entender o porquê do encanto por vinhedos antigos e através de Arnaldo Grizzo podemos ter uma definição do que é e sermos levados pelos encantos de uma vinha velha.

VINHA VELHA, O QUE É?
Um vinhedo velho, assim como uma garrafa de safra antiga, gera devoção. Nas grossas madeiras de uma planta que resistiu à prova do tempo, dando frutos, fazendo vinhos, estão gravadas décadas, às vezes séculos de história. Uma história verdadeiramente “ viva “, renovada a cada safra, a cada gole do precioso líquido produzido pelas uvas geradas por uma Vinha Velha. Assim como os consumidores, os enólogos também se deixam levar pela paixão à estas vinhas. “ Filosoficamente, o encanto delas advém das lembranças remetidas pela idade da vinha, pondera o enólogo Miguel Angelo Almeida, da Miolo Wine Group, que possui as vinhas mais antigas do Brasil, em Santana do Livramento, na Vinícola Almadén. “ A nossa vinha mais velha foi plantada em 1977, portanto são décadas de histórias enraizadas conta.
A primeira questão levantada sobre e as vinhas velhas é exatamente o seu conceito, assunto de pouco consenso. O que podemos chamar de vinhas velhas? Se consideramos que, em meados do século XIX, a vitivinicultura mundial atravessou uma de suas piores crises – com regiões inteiras sendo devastadas pela praga da filoxera, que literalmente dizimou vinhas e chegou a levar algumas variedades de uva à extinção – é de se supor que as parreiras mais antigas não tenham muito mais de 150 anos. Outros enólogos, contudo, sugerem números diferentes. Alejandro Galaz Viñalz, da chilena Ventisquero, cujas vinhas mais antigas têm anos, acredita que “velhas “ são as parreiras com mais de 25 ou 30 anos “ São plantas que encontraram uma homogeneidade de produção de fruta não somente ponto de vista de quantidade, mas também de características organolépticas do vinho”, diz.

QUAIS AS VINHA MAIS VELHAS DO PLANETA?
Datar vinhas não é muito simples, portanto, duas disputam o título de mais antigas do mundo. A primeira fica em Marribor na Eslovênia. Estima-se que a “ stara trta” (vinha velha em esloveno) tenha mais de 400 anos. Ela produz entre 35 a 55 quilos da variedade Zametovka ao ano, que são vinificados para produzir pequenas garrafas dadas de presente para celebridades que visitam a cidade. A segunda fica na região do Tirol, na Itália. Os proprietários do secular Castel Katzenzungen dizem possuir a vinha mais antiga do planeta chamada VERSOALN. Acreditam que ela tenha mais de 600 anos, apesar de estudos a tenham calculado 350 anos. Assim como a videira eslovena, produz pouco, cerca de 500 garrafas numeradas. Mas há alguns “fósseis” mais velhos que isso. Algumas remontam 1500 anos, mas seriam objetos de estudo e admiração – incapazes de produzir quantidades relevantes de fruto. Acredita-se, porém, que algumas das mais antigas videiras ainda produzindo estão na França. Uma delas é a “Vinha de Sarragachies”, no sudoeste francês, que tem mais de 200 anos e é de propriedade da família de Jean Pascal Pederbenade. Ela foi declarada monumento histórico do país em 2012. Outra que data de 1850, está no maravilhoso Vale do Loire e pertence a Henry Marionet. É a única “ anciã” que produz um vinho de vinhedo único, chamada “Provignage” de ínfimos 3.600 metros quadrados, da esquecida casta Romorantin. “Vinhedos antigos têm grandes histórias atreladas a eles. O mais antigo da California sobreviveu a duas guerras mundiais, à Lei Seca, à Grande Depressão, à Grande Recessão…”conta David S. Gates Jr. Por fim, nem mesmo os franceses conseguem chegar a um consenso.” Depende do vinhateiro. Raramente utilizamos essa terminologia (Vinhas Velhas), apesar de termos muitas vinhas antigas”, conta Jacques Desvernois, enólogo da Maison Paul Jaboulet Ainé, no Vale do Rio Rhone (Ródano), que considera 40 anos uma idade razoável para catalogar um vinho como sendo de Vinhas Velhas. “Infelizmente, não existe uma definição legal para rotular um vinho assim. O que é velho?”, pergunta Etienne Hugel, produtor da maravilhosa região vinícola francesa, a Alsacia. “Velho é relativo. Pessoas como eu? Pergunta, certamente não. Apenas avançamos em qualidade e sabedoria, como as uvas”.

A VERDADEIRA EXPRESSÃO DO “TERROIR”.
Equilíbrio e constância parecem ser as chaves para as VINHAS VELHAS, e não à toa que os Enólogos procuram vincular a elas a questão do “terroir”. “Vinhas Velhas desenvolvem uma harmonia certa e palpável com seu entorno (terroir), gerando qualidades especiais na fruta que normalmente produzem vinhos excepcionais, de grande qualidade e identidade”, aponta Christian Sotomayor, da Valdivieso. Segundo Luís Pato é graças às raízes profundas que se consegue ter uma pura expressão do “terroir”, um vinhedo velho tem as raízes mais instaladas no terreno e logo recolhe maior quantidade das características do solo onde está plantado”. Segundo Marcelo Retamal, a atuação do enólogo é decisiva na vida de uma vinha em especial das Vinhas Velhas. “Esses vinhedos foram plantados em uma época em que a viticultura e a enologia eram muito diferentes. Creio que o principal problema somos, às vezes nós, enólogos, que mudamos a forma de manejar a vinha. No fim, a tecnologia pode pedir a conta e perdemos a essência real desses vinhedos” Sábias palavras.

VIVER PARA SEMPRE?
Mais custosas ou não, a verdade é que as Vinhas Velhas não deixam de seduzir os enólogos e, muitas vezes, os degustadores através de seus vinhos. Então surge um ponto importante: quanto tempo uma vinha é capaz de durar? Seria ela capaz de ser imortal, atravessando os tempos e produzindo vinhos cada vez melhores? Apesar de prezar as vinhas de 60 anos para a produção de seu ícone Casa Real, a enóloga Cecília Torres sabe que elas não viverão para sempre. “Não vão viver até 100 anos. Talvez durem mais 20. Chega um limite que a produção já não é economicamente possível”, revela, lembrando que os Chateaux bordaleses (de Bordeaux) costumam replantar 5% de seus vinhedos todos os anos. Tomás Roquette, enólogo da Quinta do Crasto, uma das principais vinícola de Portugal, produtor destas vinhas que já tivemos o prazer de degustar, afirma que elas precisam ser mantidas com um vigor produtivo reduzido para ter equilíbrio. “Muitas vezes usamos a expressão “ manter a vinha como se estivesse ligada à máquina” como se estivesse quase a definhar, mas sempre ainda com “coração a bater”, conta, ao mesmo tempo que concorda com a enóloga Cecília Torres: “ É fundamental que a qualidade obtida numa Vinha Velha justifique a sua existência, pois caso contrário, se não se verificar de uma forma constante produções de grande nível qualitativo, será melhor a sua reconversão”. É a lei da vida. Sendo assim, usamos a poesia do grande e inesquecível Vinicius de Morais que nos legou a frase póstuma “ QUE SEJA ETERNO ENQUANTO DURE”.

HOMENAGENS AO DIA DO ENÓLOGO
Comemora-se dia 22 de outubro o DIA DO ENÓLOG0 profissional que, como vimos em nossa matéria VINHAS VELHAS, é o grande responsável pelos cuidados técnicos de um vinhedo em todo o mundo, é o profissional que estuda tudo que está relacionado com a produção e conservação do vinho, desde o plantio, à escolha do solo, produção envelhecimento, engarrafamento e venda. Existem pouquíssimas faculdades de Enologia no mundo e são raríssimos profissionais desta área, normalmente são agrônomos que se especializam nesta área para poderem desenvolver esta técnica, um papel cada vez mais importante no mundo vínico. Parabéns pelo seu dia que continuem cada vez mais nos regalando com vinhos cada vez mais maravilhosos.

Osvaldo Nascimento Juniors.:
Advogado, Empresário, Enófilo, Sommelier, Consultor, Colunista e Palestrante de Vinhos, autor do livro sobre Vinhos, VINUM VITA EST – A HISTÓRIA VISTA PELO VINHO, pela Editora Prismas de Curitiba, sucesso de vendas em nossos Cursos e Palestras sobre vinhos. Adquira-o pelo fone (41) 996889252 ou osvaldopinheiro@gmail.com