Wilson Picler mostra o certificado do título de Cidadania ACP, ladeado pelo presidente da ACP, Glaucio Geara, e sua esposa a arquiteta Suzana Moritz.

 

Cheguei à Associação Comercial do Paraná na noite de quinta, 5, preparado para viver “grandes emoções”.

As aspas (“) se explicam: como o homenageado seria o professor Wilson Picler, criador e chanceler do Centro Universitário Uninter, eu não tinha dúvidas de que o físico, professor e inquieto empreendedor (e magnata) poderia até provocar lágrimas de componentes da plateia. E igualmente risos por seu fino humor, um “sense of humor” meio inglês meio nativo, tradutor de realidades por vezes tragicômicas; muitas das quais resultaram, por exemplo, no projeto educacional de qualidade que hoje atende 600 mil alunos em todo o país em 400 cidades. E que estaria avaliado em quantas centenas de milhões de reais?

Não deu outra: lágrimas houve naquela noite. Discretas mas expondo dores e marcas de quem (Picler) nunca foi ‘turista’ na vida. São lágrimas que chancelam uma biografia rara, um “selo de qualidade de vida”, como a do educador e empreendedor curitibano.

UM HOMEM DE FÉ

Houve risos diante de uma bem-humorada narrativa de peripécias pessoais, ousadias e “loucuras de meta certa”. Coisas de um “homem de fé”, como o classificou Odone Fortes Martins ao saudá-lo na entrega do título Cidadania ACP, e ‘empreendedor maiúsculo’, como o chamou Gláucio Geara, o presidente da ACP.

As mais expressivas dessas lágrimas foram as roladas do rosto desse homem de quase dois metros de altura, ao narrar capítulos de sua saga de moço pobre buscando afirmar-se na vida. O que significou – em momentos dramáticos, como lembrou -, até direito a passar fome e percalços como uma quase tragédia em busca de um quarto e uma cama para repousar, na Unicamp, no começo da pós-graduação.

O cardápio invariável desses dias era composto só de laranja e mamão.

AULA MAGNA

Foi uma aula magna para lideranças do comércio curitibano e alguns convidados não necessariamente da área, que lotaram o acolhedor Salão Nobre da ACP.

Estou exagerando? Perdi o distanciamento crítico diante das instigantes e ricas manifestações desse querido amigo? Ou estou apenas reportando aquilo que testemunhei numa noite singular, de reencontro com uma alentada história de vida?

Na verdade, estou, sim, decompondo, sob minha ótica, um momento único que a ACP guardou na sua memória impressa e digital para a posteridade.

E que todos os que lá estavam recolhemos, sobre quanto pode a vontade do homem.

Não sei bem por quanto tempo Picler foi professor. Sei que tem didática adequadíssima para a função, qualidade que sacramentava, anos atrás, a necessidade de curso superior para ingresso na carreira do magistério médio e universitário.

“Picler é um didata por direito de nascença”, crava Roberto Fonseca, quadro funcional da Uninter, meu velho amigo e pessoa da melhor confiança de Picler.

CLARO IDEÁRIO

O físico, formado pela UFPR e pós-graduado em Física pela segunda mais importante universidade do país, a Unicamp, tem um ideário bem claro.

Nele, o empreendedor prevalece nesse homem de alma sensível e, ao mesmo tempo (sim, é possível) de lógica cartesiana, que trabalha com facilidade realidades como as reveladas por Einstein e outros sábios.

Mas também ao mesmo tempo gerencia em sua vida pessoal outras realidades não mensuráveis, as da fé, exercícios espirituais.

Ele também sintetiza com precisão e simplicidade que o mundo empresarial requer em face das novidades tecnológicas assombrosas e em diárias mutações.

Seu olhar apurado para o empreendedorismo, Picler foi mostrando desde os primeiros dias da Uninter. O centro universitário começou nos anos 1990.

Como exemplo dessa visão, disse que os primeiros lucros foram dirigidos para a capitalização da empresa, a compra da casa-sede da Uninter, e dotando a instituição da última geração de computadores daqueles dias.

Esses primeiros computadores resultaram da venda do velho Opala com que ele e seus sonhos se deslocavam por Curitiba.

Esse espírito de ser contemporâneo do futuro foi a primeira grande surpresa mostrada por Picler à concorrência educacional do derredor e, por que não dizer, a vários complexos educacionais brasileiros que hesitavam em se livrar de administrações amadoras.

VELHO BOM SENSO

Nessa aula magna na ACP, Wilson Picler mostrou ainda que chave de seu sucesso está lastreada no velho bom senso, e em lições que precedem anos-luz – é minha opinião – aos MBs e manuais de empreendedorismo: “É preciso não confundir a entrada de caixa com lucro”; ou empresa só “vai pra frente se bem capitalizada”.

Definições acacianas? Prefiro classificá-la como partes salientes de um “entrepreneur” que só queria, no começo de tudo, se encaminhar para a aviação, e que chegou, na mocidade, a buscar a Escola de Cadetes do Ar de Barbacena, MG. Mas que deu seus primeiros passos para uma sólida formação escolar média quando, com o irmão Edmilson foi cursar o Cefet de Curitiba: “Era uma escola superior a muitas universidades federais”, garantiu. Chega a arriscar: “Era em muitos momentos superior à própria UFPR”.

VOOS DOS DOUTORES

O homenageado da ACP falou de improviso, um dos seus fortes. Não perdeu o fio da meada, dosando cronologias com o relato de episódios engraçados, outros, desafiadores e decisivos para seu projeto de vida. Neste caso, citou os dias iniciais do IBEPEX, o instituto de dimensão nacional voltado para os cursos de pós-graduação que – num golpe de ousadia – acabaria democratizando as pós levando-as ao interior distante do país. No Norte difícil, especialmente.

– Havia dias em que os aviões da TAM partiam de Curitiba com 50% de passageiros da Uninter, lembrou Picler daqueles tempos pioneiros.

Nesses voos, lotados de mestres e doutores, iniciou-se o grande programa de democratização da pós-graduação no Brasil.

Homem de crenças sólidas em realidades transcendentais – aliás, como identificam muitos físicos, como o francês histórico, Jean Guitton -, Wilson Picler não se enquadra, no entanto, entre os dogmatizadores. Mas tem suas certezas, algumas delas, acredito, reveladas em seus profundos momentos de reflexão espiritual diários.

“ÁGUA BOA”

Por vezes dirigindo-se a amigos da plateia, foi nominando gente como o professor Wanderlei Veiga, sua grande admiração, seu mestre no CEFET e depois na UFPR, em Física; o pai, Gabriel; a esposa, arquiteta Suzana Moritz; o irmão e parceiro, Edmilson Picler, dono de 5% das ações do Grupo Educacional Uninter, responsável pela melhor parte da envergadura administrativa da corporação; o vice-reitor e ex-vereador Jorge Bernardes, amigo de dezenas de anos; ex-ministro Luiz Carlos Borges da Silveira; o empresário Felix Bordin, Odone Martins, Gláucio Geara…

A mim me citou atribuindo-me qualidades de conhecedor de parte da memória do Paraná de hoje.

As lições, enfim, dessa aula magna de Picler foram muitas, não cabem nesse espaço em que registro apenas algumas mais relevantes, como a observação-recomendação preciosa: “Quem chega primeiro bebe água boa”.

Tal, como disse, ocorreu com seu grupo Uninter (e desdobramentos como IBEPEX).

Água boa ele bebeu quando, sentido os sinais dos tempos, e os caminhos que o ensino à distância (EAD) iriam tomar no país, foi agigantando e consolidando a Uninter. A tal ponto a empresa cresceu – assim como outras, em outros estados, nascidas na mesma época, anos 1990 – que, admite, o Governo “interferiu na livre iniciativa”, criando mecanismos de controle de crescimento de organizações educacionais. A Uninter foi das primeiras atingidas.

– Do jeito que íamos, organizações como a Uninter caminhavam para tomar conta do mercado no país, registrou.

PALAVRA É PRA DIZER

Conheço bem o professor Picler, meu personagem no primeiro volume do livro Vozes do Paraná I, editado em 2008. Por isso entendo muito claramente sua didática, quando vai discorrendo sobre seu tema preferido, o empreendedorismo. E o faz com ênfase nos substantivos, o que só dá vigor ao conteúdo: “Afinal, palavra foi feita para comunicar, não para enfeitar”, costuma dizer, passando mais umas suas lições.

Com a mesma desenvoltura com que lembra os dias “terribilis” do início de estudos no CEFET de Curitiba vindo de Maringá, com Edmilson, Wilson Picler não se envergonha. Admite que chegou a Curitiba “meio caipira”, um estranho no ninho daquela escola técnica “que então abrigava os filhos da elite curitibana”. Lá sentiria na carne quão precária fora sua escolarização numa escola pública comum:” “Fui reprovado, uma vez, no CEFET porque na hora de fazer uma palestra que pontuava e decidia promoção de ano escolar, fui falando tipo – ‘precisamos ama(r). Comia todos os erres do infinitivo, entre outras expressões não ortodoxas.

“LOBOS DE WALL STREET”

Hoje fala um português impecável. Pode-se classificá-lo de bom orador, forte nos substantivos, seguro narrador de fatos concretos e melhor analista ainda da sua realidade empresarial e da sua história de vida.

Essa narrativa de Picler por vezes pode parecer crua demais. Mas ele não faz por menos: “Livramo-nos de todos os lobos de Wall Street que quiseram comprar a Uninter”, garantiu, ao mesmo tempo em que passou informação oportuna ao mercado: “a Uninter vale por sua sanidade -, disse, acrescentando que seis balanços consecutivos da organização mostram a empresa sem restrições de qualquer ordem. Com impostos em dia.

Essa sanidade é garantida pelos “lobos” do bem, a consultoria internacional Price.

Consultorias como a Price analisam e avalizam os resultados de hoje de uma organização que já preparou pelo menos um milhão de alunos. E que hoje tem 500 mil alunos matriculados Brasil afora.

Mas só Wilson Picler pode contar essa história de pelejas de inúmeras dobraduras, como sua primeira noite dormindo no chão frio, em Campinas.

Lugar que teve de deixar na manhã seguinte.

Lá fora iniciar pós-graduação em Física, ferramenta básica para seu empreendimento futuro.

Acha que se não fosse do ramo educacional, dificilmente chegaria onde chegou. Até por isso, passou lição final:

– Ser do ramo em que se vai atuar é imprescindível, grandes projetos não premiam aventureiros.

Em tom de bom humor, admitiu haver verdade na máxima de Santo Agostinho – “a sorte ajuda os audaciosos”.

Não conheço ninguém mais audacioso em negócios do que esse Wilson Picler.

NB: o assunto Wilson Picler dificilmente se esgotará no meu inventário de personagens notáveis do Paraná. Há muito a acrescentar sobre ele, outros temas que o envolvem pedem análise e registro. Por exemplo: Picler foi um dos que mais influenciaram o Governo para a criação do Prouni, a grande porta de acesso dos pobres à universidade, fazendo do então ministro Haddad seu interlocutor.

Teria ainda de mostrá-lo como devotado pesquisador de um tema muito controvertido, o dos OVNIs; e também como “peregrino” político que por anos seguiu o PDT de Brizola e Cristovão Buarque, e hoje promete caminhar ao lado de Jair Bolsonaro; e mais: que sintonizado com reclamos da sociedade brasileira, defende ardorosamente a prisão de condenados em segunda instância.

Assuntos para logo mais, espero.

(AMGH)

Wilson Picler assinando a ata que conferiu o título de Cidadania ACP.
Camilo Turmina, vice-presidente da ACP; Glaucio Geara, presidente da ACP; Wilson Picler, o homenageado, a esposa Suzana Moritz, arquiteta; e Odone Martins, vice-presidente da ACP.
Gláucio Geara, em seu discurso destacou “a postura ética ilibada do professor Picler.
Para Odone Fortes Martins, Picler “colocou a vida à disposição de um objetivo, a evolução do conhecimento, para ajudar a tornar o mundo um pouco melhor”.
Emocionado, Picler declarou: “Orgulho-me de fazer parte desse brilhante time de cidadãos, vou continuar inovando para melhorar o acesso à educação em todo o território nacional, missão que venho desenvolvendo há mais de 20 anos”.