*por Claudia Queiroz

Nunca curti o gosto, o cheiro ou qualquer ‘tom’ acinzentado, nublado e fedido que vinha da boca de quem fumava um cigarro… E quanto menos eu gostava, mais as fumaças me encontravam. Eu ainda era criança quando via pessoas fumando e pensava: “coitados, precisam de ajuda”.

Pra mim, aquela cena (que no cinema da década de 40 simbolizava uma espécie de status ou poder de sedução) significava alguém com fragilidades emocionais, buscando algum tipo de compensação. Mais tarde, percebi que os fumantes estavam sempre acompanhados. Nas empresas, o cantinho destinado a eles era o local mais sociável e animado, porém, com um cheiro pra lá de desagradável. Não demorou para que eu compreendesse que o cigarro da dependência química por nicotina era o mesmo que prometia passaporte para a diversão. Uma espécie de ‘prisão com benefício social’. Grupos que se reúnem e sempre falam da vontade de parar, das dificuldades em largar o vício, mas não conseguem.

Em tempos de faculdade, muitos colegas curtiam um ‘baseado’. Eles se achavam mais intelectualizados ou criativos quando usavam a droga. E lá estava eu, novamente fora desta ‘vibe’ (e da roda também).

Certa vez, de carona no banco traseiro, saltei do carro em que um grupo de ‘amigos’ acendia um cigarro de maconha. Eles acreditavam estar invisíveis para agentes de trânsito ou incontáveis pessoas que passavam por nós. Não se atentavam ao rastro do aroma, no tom amarelado dos dedos polegar e indicador, na maneira de falar esquisito e na falta de conexões neurológicas racionais que denunciam qualquer usuário. Até hoje não sei se me excluí ou se acabei sendo expulsa destas relações de amizade. Precisamos ter coragem para assumir ser quem somos, sem a necessidade de ter que ‘pagar pedágio’ pelo desejo de participar de uma “panela” ou num grupo que nos acolha.

Para mentir, tirar vantagem ou enganar, qualquer covarde pode vestir capa de super-herói…, sem nunca salvar ninguém, nem mesmo a própria pele. Porque ficar refém de um cigarro pra puxar conversa, de um baseado pra parecer criativo e até mesmo de algumas doses de bebida alcoólica para a vida ficar mais engraçada é o mesmo que tomar antidepressivo quando se quer curar a tristeza. É fake!

A aprovação da lei que proibiu fumantes de acenderem cigarros em locais fechados representou o fim de uma ‘tortura’, ao menos para mim, por tentar degustar um prato de comida de alto nível em meio a tanta fumaça… Após essa proibição, o Brasil reduziu em 40% o número de fumantes e já é o segundo país do mundo no combate ao fumo, seguindo medidas indicadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Mas estamos prestes a votar sobre a legalização do uso da maconha num país imaturo, onde a liberdade de escolha fere diretamente a segurança quanto às consequências do uso desta droga. Em linhas gerais, entende-se que legalização é tornar cada vez mais acessível uma substância alucinógena.

A meu ver, falta consciência de quem usa ou é favorável à liberação, seja porque não consegue perceber que existe um mundo inteiro em torno, seja porque justifica o movimento como sendo uma tendência modernista.

Mesmo as estatísticas apontando que menos de 6% da população brasileira é usuária, é muita gente, entretanto longe de ser maioria. Fato é que a legalização atrai indústria, que cria campanhas para aumentar o consumo, elevar as vendas, gerar lucro, impostos e beneficiários com algo que prejudica relacionamentos, responsabilidades, desenvolvimentos, evolução… Na Holanda, a liberação do uso de maconha atraiu o turismo, a prostituição e o consumo de outras drogas. Hoje estão revendo este posicionamento, que se tornou problema à nação.

Aqui no Brasil, um país cheio de brechas nas interpretações das leis, com ainda a cultura da vantagem pela exceção, infelizmente não há educação suficiente para legalizar algo que jamais deixará de ser uma droga. Liberar seria como andar na contramão, dispostos a abraçar ainda mais encrencas. Todo e qualquer discurso diferente disso é artifício de manipulação. Proteger nossos filhos não é balela.

Claudia Queiroz é jornalista.