Os turistas em Curitiba encontram boas exposições no Museu Oscar Niemeyer, entre elas a que exibe 150 fotos do etnólogo e antropólogo francês Pierre Verger (1902-1996), que viveu parte da sua vida na cidade baiana de Salvador, onde captou imagens memoráveis. A mostra é composta por diferentes fases do seu trabalho pelos cinco continentes.

Os curadores Alex Baradel, responsável pelo acervo da Fundação Pierre Verger, e Marcelo Guarnieri dividiram as fotos em núcleos que compreendem distintos momentos do seu trabalho. Estão em exibição as primeiras impressões fotográficas (vintages); as fotografias para a imprensa francesa (1932-1934); o registro da II Guerra; o Nordeste brasileiro; os cultos afro-brasileiros; a Guerra Sino-Japonesa, entre outras documentações.

Informações da curadoria núcleo a núcleo:

Vintages mais antigos

Além de algumas fotos de família realizadas no início do século XX, os vintages mais antigos presentes no acervo da Fundação Pierre Verger são ampliações realizadas na Europa no início da década de 1930. É um material precioso, já que os negativos correspondentes foram perdidos durante a guerra. Esse material apresenta um aspecto do trabalho de Verger pouco conhecido – fotos de lazer na França –, anunciando, entretanto, seu interesse pelos corpos, especialmente pelo nu, assim como a busca de horizontes fora da cidade. Nessa época, Verger também produziu vintages das suas fotos feitas na Polinésia para sua primeira exposição realizada no Museu de l’Homme, em 1934. Por não possuirmos tais cópias, apresentamos outras impressões feitas alguns anos depois.

Fotógrafo para imprensa

Em dois anos (1932-1934), Verger passou de fotógrafo amador a um dos fotógrafos mais publicados na imprensa francesa. Identificamos mais de 1.200 fotografias diferentes de Verger publicadas em jornais, revistas e livros, de 1934 a 1939: as primeiras, no jornal francês Paris-Soir, e depois nos mais diversos suportes, notadamente em prestigiosas revistas como Life, Daily Mirror, Arts et Métiers Graphiques.

Muitas dessas imagens foram publicadas através da agência Alliance-Photo, precursora da Magnum, cuja diretora Maria Eisner publicou com muita eficiência o trabalho fotográfico de Verger. Existem muitos vintages dessa época, provenientes do acervo da Alliance-Photo, material utilizado para apresentar os clichés dos fotógrafos aos clientes da agência.

A Segunda Guerra Mundial

Durante a guerra, encontrando-se no continente sul-americano, Verger não pôde mais contar com a Alliance-Photo para publicar suas imagens. Viveu anos difíceis, mas continuou publicando. Em um primeiro momento, na Argentina – onde ficou por dois anos –, notadamente na revista Mundo Argentino, para a qual já entregava conjuntos de imagens, formando o que se pode considerar como fotorreportagens, já que são acompanhados de textos, o que pouco fazia até então. Em um segundo momento, no Peru, onde trabalhou para o Museu de Lima, para quem realizou um trabalho de caráter mais antropológico sobre a cultura andina. Parte desse trabalho foi publicado num dos primeiros fotolivros feitos na América Latina, também um dos primeiros registros de antropologia visual: Fiestas Y Danças em Cuzco.

O Nordeste brasileiro

Quando Verger voltou ao Brasil, em 1946, conseguiu trabalhar como fotógrafo por meio de um contrato assinado com O Cruzeiro, maior revista sul-americana da época. Seguiu assim para o Nordeste, onde realizou, de 1946 até o final de 1948, um de seus mais importantes trabalhos sobre a cultura popular nordestina. Não somente a cultura afro-baiana, mas também do interior da Bahia, de Pernambuco, Alagoas, Paraíba… No acervo do fotógrafo existem muitos vintages agrupados por temática, com textos e legendas, formando fotorreportagens que foram publicadas tanto na revista brasileira O Cruzeiro – muitas vezes com textos de Odorico Tavares – quanto em revistas internacionais.

Os cultos afro-brasileiros

Desde sua chegada na Bahia, Verger se encantou pelos cultos afro-brasileiros. Muito bem recebido no mundo do candomblé da Bahia e de Xangô do Recife, ele aproveitou seus contatos com antropólogos (Bastide, Monod, Métraux) para poder voltar ao Benim e melhor entender as similitudes entre a cultura afro-baiana e as dos países do Golfo do Benim (Benim e Nigéria).

Essa volta para a África, em 1948, foi a primeira de inúmeras viagens que aconteceram sem descontinuidade até o final da década de 1970. Além de publicar essas fotografias em livros de caráter cada vez mais antropológico (Dieux d’Afrique), Verger também as utilizou diretamente, apresentando impressões de formato pequeno (24 x 18 cm) aos seus interlocutores – não só aos pesquisadores, mas também às próprias figuras retratadas.

Reconhecimento retrospectivo no Brasil – Corrupio (anos 80)

Os “problemas“ enfrentados por Verger na Nigéria, em 1978, marcaram o fim das suas longas viagens para a África. Graças a uma parceria com novos colaboradores, seus trabalhos foram publicados pela primeira vez na Bahia através da Corrupio, editora criada inicialmente para lançar seus trabalhos. Diversos livros foram publicados com sucesso, seguidos de exposições no Brasil, sobre as temáticas baiana e afro-baiana e também sobre a China, em Shangai.

Reconhecimento retrospectivo internacional – Revue Noire (anos 90)

Durante a década de 1980, a equipe de fotógrafos que participaram da Alliance-Photo foi destacada numa exposição com catálogo e o nome de Verger reapareceu timidamente no circuito fotográfico francês. Mas foi no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 que a organização de uma grande exposição na Suíça e em Paris – no Musée d’Art d’Afrique et d’Océanie –, com ampla divulgação, ofereceu uma visibilidade inédita à obra fotográfica de Verger. Pela primeira vez após a Segunda Guerra, uma exposição de Verger aconteceu com ampliações de boa qualidade, vintages assinados por Verger, alguns dos quais presentes nessa mostra.

Le Messager – catálogo da mostra – foi também distribuído nos Estados Unidos, onde Verger era representado por uma galeria indicada por Mario Cravo Neto, amigo baiano que realizou as ampliações de Verger comercializadas nesse local.

Segunda Guerra Sino-Japonesa

É verdade que Verger foi um fotógrafo completamente livre, escolhendo o destino das suas viagens e, consequentemente, os assuntos que fotografava, mas há algumas exceções. Uma delas se deu quando foi contratado para fazer a cobertura da Segunda Guerra Sino-Japonesa, já no final do ano de 1937. A pedido de Maria Eisner, uma das fundadoras da Alliance-Photo, produziu um material que concorreria no mercado com o de ninguém menos que Robert Capa, que também havia ido cobrir o conflito. Mas Verger, segundo seus próprios termos, não era muito corajoso e nunca falou tanto a respeito das fotos feitas nessa época. Apenas comentou que achava muito “estranho” estar cobrindo um conflito horroroso que gerou tantos mortos, mas sem correr nenhum risco, já que ele e outros repórteres ficavam hospedados em “Concessions” protegidas por leis internacionais. Os vintages aqui apresentados foram utilizados pela agência Alliance-Photo e acabaram sendo publicadas em importantes revistas da época, como Life e Regard. Apesar de não gostar desse material, Verger aceitou o pedido para poder seguir para as Filipinas, país para onde queria muito voltar.

Imperdível: A mostra fica em cartaz até 10 de março, com visitação de terça a domingo, das 10 às 18h. Ingressos a 20 e 10 reais. Maiores de 60 anos não pagam. Quartas gratuitas, das 10h às 18h – acesso até 17h30. Primeiras quartas do mês, das 10h às 20h – acesso até 19h30.