Uma história de horror

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Eça de Queirós conhecia bem a alma da humanidade: "Longos são os caminhos da Galiléia, curta a piedade dos homens”. Não publico cartas aqui. O espaço é pouco e muitos os assuntos.

RIO – Eça de Queirós conhecia bem a alma da humanidade:

– “Longos são os caminhos da Galiléia, curta a piedade dos homens”.

Não publico cartas aqui. O espaço é pouco e muitos os assuntos. Mas hoje me sinto no dever de abrir uma exceção, porque se trata de uma historia de horror, que bem denuncia a tragédia da saúde no Brasil, sobretudo a saúde pública, e essa armadilha que se chama planos de saúde.

Publico-a, também, porque há meio século conheço a exemplar família atingida pela impiedade. E na integra, porque não há como resumir.

Livraria Cultura

1. – “Sou portador de neoplasia maligna no cérebro (câncer cerebral). Tenho 31 anos, uma esposa maravilhosa e uma linda filha de 1 ano. Pretendo e luto muito para poder desfrutar ainda de muito tempo ao lado delas, de minha família e meus amigos. Infelizmente, por decisão mesquinha da “Livraria Cultura” (SP), posso não ter meus desejos atendidos.

Em 17 de abril de 2007, após crises convulsivas e perda parcial da consciência, submeti-me à cirurgia de craniotomia descompressiva de emergência. Começava aí meu pesadelo. Após vários dias em coma e uma longa estadia no hospital, finalmente voltei para casa. Posteriormente, novo susto: uma ressonância magnética de crânio demonstrou aspecto sugestivo de glioma de baixo grau – tumor cerebral benigno. Entretanto, outro exame mais moderno, PET-Scan cerebral, revelou áreas de malignidade”.

Câncer cerebral

2. – “Em 24 de julho de 2007, submeti-me à cirurgia para ressecção parcial do tumor cerebral e retirada de material para a realização de biópsia. Mais uma vez outra decepção: a biópsia revelou a existência de Astrocitoma Grau III, ou seja, câncer cerebral maligno.

Após a confirmação do diagnóstico e tendo em vista não ser possível a ressecção total do tumor, iniciei em setembro daquele ano o tratamento de radioterapia no “Centro Especializado em Radio-Oncologia de Minas Gerais” e quimioterapia no “Centro Avançado de Tratamento Oncológico”, ambos em Belo Horizonte.

Em março deste ano, uma vez mais, outra desagradável surpresa: acometido por uma tromboembolia pulmonar, passei por nova internação hospitalar. Atualmente, estou em tratamento quimioterápico, devendo submeter-me, posteriormente, à cirurgia para implantação de prótese na calota craniana e, se necessário, à radiocirurgia”.

Plano de saúde

3. – “Pois bem. Creio que salta aos olhos de qualquer um o tamanho do sofrimento pelo qual eu e minha família estamos passando. Mas a dor maior me aguardava, a pior de todas, a provinda da ganância e da falta de solidariedade do ser humano para com o próximo.

Meu tratamento de quimioterapia deixou repentinamente de ser custeado pelo meu plano de saúde, por ordem de meu empregador (Livraria Cultura, São Paulo, Avenida Paulista), para a qual trabalho desde 2005 (apesar de afastado desde abril de 2007 por razões óbvias). Segundo a empresa, o meu tratamento quimioterápico onera-a por demais (diminuindo os seus lucros). 

A empresa concedeu-me então a opção absurda e imoral de custear os honorários de advogado para que eu acionasse judicialmente o Estado para fornecer a quimioterapia oral. Proposta obviamente recusada. O diretor presidente da “Livraria Cultura”, Sérgio Herz, não satisfeito, ligou para a minha esposa e agrediu-a de tal forma que ela chorou copiosamente por muito tempo. Aos berros, chamou-a de mesquinha e de preconceituosa”.

Plano cancelado

4. – “Passada mais essa decepção (que persiste, haja vista que o plano ainda se recusa a cobrir a quimioterapia, por ordem da Livraria Cultura), outra insensatez: agora, a empresa trocou de plano de saúde, reduzindo a rede de atendimento médico, sem qualquer comunicação a mim.

Descobri, ao solicitar autorização para a feitura de uma ressonância magnética, que não só a quimioterapia não será mais custeada pelo plano de saúde, como todo o meu tratamento deixará de ser coberto.

É que o novo plano não atende mais em Belo Horizonte, onde eu vinha fazendo todo o meu tratamento, por se tratar de localidade em que reside a minha família e na qual são sediadas as clínicas “Centro Avançado de Tratamento Oncológico” e “Centro Especializado em Radio-Oncologia de Minas Gerais”, bem como os renomados médicos Dr. André M. Murad e Dr. Eduardo Komai Tagawa. Trata-se dos responsáveis pelo meu acompanhamento médico e com os quais tenho obtido ótimos resultados”. 

Patrão

5. “A decisão unilateral da Livraria Cultura inviabilizou por completo o meu tratamento em Belo Horizonte, acarretando-me inúmeros prejuízos morais e materiais. A empresa sempre soube que meu tratamento de saúde estava sendo feito em Belo Horizonte. Inclusive me solicitaram laudos médicos, laudos de exames, biópsia etc. De boa-fé, entreguei prontamente à empresa cópias de todos os meus documentos médicos. A empresa tem conhecimento, inclusive, de que a previsão do tratamento é de, no mínimo, mais 6 ciclos de quimioterapia, e, se necessário, radiocirurgia.

Resta-nos refletir: como pode o lucro sobrepor-se à vida humana? Como pode um dirigente de empresa decidir quanto tempo de vida ainda devo ter?

Alerto meus colegas de trabalho da Livraria Cultura (São Paulo) sobre o que podem esperar desse tipo de patrão”.