Time infantil de basquete é impedido de treinar em escola

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MATHEUS OLIVEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Desde outubro deste ano, 60 crianças de 9 a 14 anos do Parque Cruzeiro, em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo, não tem onde treinar basquete.
Após mais de 20 anos com treinos na escola municipal Presidente Epitácio Pessoa, a equipe Ursos de Basquetebol foi impedida de treinar na quadra da unidade durante a semana.
A diretoria alega que o time é formado, na maioria, por participantes que não são da escola, o que justificaria a medida. No entanto, a equipe contempla crianças que são moradoras do bairro.
Coordenado por Alexandre Silva, 44, o Urso, o projeto ensina basquete para crianças e jovens desde 1990. Fundado na escola estadual D. Pedro I, também em São Miguel Paulista, o time está na Epitácio Pessoa desde 1998. Ao longo desses 29 anos, cerca de 5.000 pessoas vestiram o camisa dos Ursos.
Durante o expediente, Alexandre é inspetor de alunos na Epitácio e de forma voluntária partilha os fundamentos da bola laranja.
“Conheci o basquete nos Jogos Pan Americanos de 1987, com o Oscar Schmidt. De lá pra cá nunca parei de estudar e ensinar se tornou uma missão. Porque dentro de quadra as crianças aprendem a se expressar jogando basquete”, diz o treinador.
Hoje, cerca de 200 meninos e meninas integram categorias que vão do sub-11 ao sub-20. São 60 alunos que estão sem treino durante a semana e mais 140 que seguem treinando aos sábados. No entanto, há receio sobre essas atividades também serem afetadas.
Há tanto alunos da Epitácio Pessoa como alunos de outras escolas da região.
Procurada, a direção da escola informou que não poderia se pronunciar e que funcionários não podem dar entrevistas sobre assuntos internos.
À reportagem, a SME (Secretaria Municipal de Educação) justificou, em nota, que a paralisação da cessão da quadra se deve ao elevado número de participantes que não são alunos da Epitácio Pessoa e reafirmou a saída encontrada pela direção.
A diretoria propôs “que durante a semana as atividades do projeto fossem dedicadas apenas aos alunos da unidade, no contraturno escolar e, nos fins de semana, abertas aos demais membros da comunidade, conforme diz a legislação”.
Ao longo dos anos, a equipe de basquete foi mantida com o apoio de pais que vivem na região. Lolita Stasionisas, 39, é tesoureira da equipe e mãe de um atleta da categoria sub 17.
“Aqui meu filho é muito bem acompanhado. Ele estava com princípio de depressão e asma, hoje é um novo garoto. Além dele ganhei uma família inteira até, porque todos nós do time somos muito unidos “.
Segundo Lolita não há patrocínio. A saída para levantar dinheiro são rifas, contribuições voluntárias dos pais e até mesmo barracas de cachorro-quente e de pescaria na festa junina da escola. O dinheiro é para pagar transporte e a taxa de arbitragem em torneios, com custo anual de R$ 15 mil.
Essa união do time se traduz em conquistas. Em 2007, a equipe ficou em terceiro lugar nas olimpíadas estudantis da capital paulista.
Atualmente, mesmo sem quadra para treinar, o time disputa a Nova Copa de Basquete, na qual conquistou, no começo desse mês, a prata na série sub-14 masculino, o bronze na sub-13 masculino e o ouro na categoria sub-15 masculino.
Em retribuição, ex-atletas como Caique Santana, 23, contribuem com equipamento esportivo e apoio aos garotos. “Fui um aluno indisciplinado. Quando entrei no time me tornei um aluno focado, peguei firme”, conta.
Ele chegou a se destacar e ser convocado para seleção de base. “Pela seleção brasileira, disputei os Jogos Olímpicos da Juventude de 2014, em Nanjing, na China, na modalidade 3×3. Eu falo pros caras da minha geração: ‘Na nossa época, não tinha ajuda’. Nós já estivemos ali. Apoiar é uma forma de gratidão “.
A união em forma de apoio chega à disputa pela recuperação da quadra. Júlia Souza, 23, atleta da equipe feminina sub-23 organiza uma petição online que solicita as atividades no espaço da Epitácio Pessoa.
Segundo a atleta, “a comunidade está ativa para recuperar a quadra. Atletas, pais de atleta, ex-atletas, todo mundo está assinando e compartilhando a petição. Já que são nossas crianças que estão sentindo na pele o que é ficar sem treinar”.
No último dia 26 de outubro, 70 pessoas realizaram um abraço em torno da escola Presidente Epitácio Pessoa.
A petição online conta com 10 mil assinaturas e continua aberta (https://bit.ly/34gN8uG). Na próxima quarta-feira (18), haverá uma reunião do conselho escolar para decidir sobre a situação do projeto Ursos de Basquetebol.