por Claudia Queiroz

Nossa sociedade respira por aparelhos. Agoniza sem tecnologia. É como se o oxigênio virasse wi-fi e a bateria do celular fosse o coração que pulsa avisos, mensagens, alertas, compromissos da agenda, contatos… Síndrome do Pânico generalizada quando algo não funciona perfeitamente. Aliás, quem consegue manter uma conversa presencial sem mostrar aquele áudio que recebeu no celular, o vídeo que assistiu ou a notícia que leu??? A sensação que tenho é que qualquer coisa é mais interessante que aquele momento…

É a comunicação digital substituindo olho no olho, toque, cheiro, tom, jeito, gosto… Isso que é ser moderno??? Pouco tempo atrás eu comprava mapas pra estudar roteiros. Em seguida, comecei a pesquisar pela internet, imprimindo as folhas e seguindo destinos. Hoje o aplicativo me mostra não só o melhor caminho, como também se há acidentes ou obras no local, radares ativos e desvios a fazer. Mas confesso que nada ainda substituiu o I-DAD, apelido carinhoso que dei ao meu pai na época em que os equipamentos da Apple começaram a se tornar sonhos de consumo… Eu ligava do trajeto pra ele me tirar dúvidas.

Só que o melhor de tudo era a companhia dele enquanto eu dirigia. Conversas diversificadas, profundas e criativas, coisa que nenhuma tecnologia vai conseguir criar.
Por mais linda que seja a proposta de aproximar pessoas, de tornar quase plano um planeta redondo, de garantir acesso às ligações de vídeo e voz gratuitas, a comunicação digital sempre será ‘quase’ suficiente.

Quase porque não é encontro real. Concordo que muitas vezes é a maneira possível de manter alguma forma de contato, mas nada substitui o abraço, a respiração sincronizada e todas as sensações pulsantes que só presenças físicas tornam presentes.

Aquela boca torta ou o olhar pra cima de desagrado, cacoetes e gagueira de nervoso, gestuais de mãos, expressões de corpo e até perceber um rosto ficar vermelho de vergonha, raiva ou sei lá o quê, que você vai descobrir quando puder olhar de verdade para alguém. De fato, nenhum emoticons de coraçãozinho é capaz de aquecer verdadeiramente a empatia, muito menos criar raiz profunda de afeto.

Emoções não são atalhos! São expressões essenciais do ser humano, de corpo e alma! O que estamos vivendo na Era da Tecnologia é um medo gigantesco de nos relacionar. Então quantidade é confundida com qualidade, pessoas podem ser adicionadas ou deletadas num círculo social virtual… Vínculos em extinção. Relacionamentos líquidos. Ficou bem mais fácil trocar de amor que consertar falhas juntos. Muita gente sozinha acompanhada do próprio egoísmo, iludidas com distrações.

Uma amiga solteira usa aplicativos de celular para conhecer homens compatíveis com a idade, estatura, aparência física e profissão para se relacionar. Eles se curtem, marcam encontros em locais públicos e, quando existe alguma química, ficam juntos. Poucas horas depois, cada um está em sua casa, com o celular na mão, escolhendo o próximo. Ninguém mais sabe flertar, paquerar, desejar, conquistar?

Necessidades instantaneamente atendidas como as de quem tem fome e não consegue abrir a geladeira ou encarar uma panela… Minha irmã psicóloga conta que atende em consultório jovens de 19 anos que não sabem nem fazer sanduíche! Geralmente pedem comida por aplicativo. Que geração é essa do alfabeto? X, Y, Z, Cristal, Topázio, Quartzo ou alguma nova? Muito triste desperdiçar o perfume que uma cozinha poderosa marca na nossa história…

Sempre questiono, pra quê ganhar tempo se o gostoso na vida é se perder no tempo com tudo aquilo que nos da prazer… Nenhum modem wi-fi vai garantir conexão com tantas coisas divinas. Se a sensação é de que o universo digital está engolindo sua vida, troque a senha. Nenhum GPS será capaz de substituir o equilíbrio entre cérebro e coração, seus melhores parceiros.

*Claudia Queiroz é jornalista.