FOLHAPRESS – Se coisas que imaginávamos havia décadas na ficção científica estão virando realidade, como controlar dispositivos por voz e reconhecimento facial, as grandes empresas de tecnologia buscam o passo seguinte: controlar computadores usando o pensamento.
Na convenção anual para desenvolvedores de 2017, o Facebook anunciou que estava iniciando pesquisas com interfaces cérebro-máquina (BMI, na sigla em inglês), em parcerias com o mundo acadêmico.
Em julho, um paper da Universidade da Califórnia em São Francisco trouxe os resultados práticos de um estudo financiado pela empresa.
O teste, liderado por David Moses, contou com três voluntários com implantes cerebrais -com o dispositivo instalado enquanto aguardavam cirurgias por outras razões- que respondiam a nove perguntas de múltipla escolha.
Ao responderem em voz alta, um algoritmo era treinado baseado na atividade cerebral momentos antes da resposta. Na reaplicação do questionário, o computador conseguiu prever, com 61% de sucesso, as respostas escolhidas, antes de o voluntário verbalizá-las.
No relatório, os cientistas dizem que a intenção é desenvolver maneiras de se comunicar com pacientes com limitações após lesões cerebrais.
O texto também faz ressalvas sobre implicações éticas. Apesar de ser um dos financiadores, o Facebook não detém direitos sobre os resultados.
Um dos grandes desafios na criação de dispositivos populares com BMI é descobrir métodos não invasivos para ler a atividade cerebral, já que cirurgia para implante não tem grande apelo popular.
A big tech de Mark Zuckerberg também investe em outra tecnologia, no Instituto de Radiologia Mallinckrodt, na Universidade de Medicina de Washington, onde se desenvolve um medidor de oxigenação do cérebro com luz infravermelha, que poderia ser construído em um gadget.
Após ser treinado com as alterações do elemento no cérebro de acordo com respostas e emoções do usuário, a máquina poderia prevê-las.
Não é só Menlo Park que tem interesse nessa tecnologia. Quando não está imerso nos planos de ir para Marte, o bilionário Elon Musk deposita suas fichas na Neuralink.
A startup, criada por ele em 2017, busca tecnologias menos invasivas para BMI e já exibiu resultados preliminares, mas expressivos: um macaco foi capaz de controlar um computador por ondas cerebrais.
A empresa tenta agora a aprovação de órgãos americanos para iniciar testes clínicos.
Especialistas admitem que o desenvolvimento de interfaces seguras e comercializáveis ainda deve levar décadas, mas já acende o sinal de alerta sobre as implicações de ter grandes corporações monitorando os seus pensamentos e, a despeitos de escândalos de venda de dados de usuários, o que poderão fazer com isso.