por Claudia Queiroz

“Mandei todas embora”, disse o homem, orgulhosamente ferido, enquanto estufava o peito, na tentativa de vencer uma discussão. Faço uma pausa na frase, porque tenho minhas dúvidas sobre essas vitórias… Começar e terminar relacionamentos é algo que treinamos muito na juventude e, pelo menos pra mim, tanta repetição confirma somente a dificuldade de encarar relações na vida adulta.  

Crescer e amadurecer é assumir que nem tudo é exatamente como a gente quer… Deixa chover, deixa a chuva molhar”, diz o refrão da música do Guilherme Arantes, tão ouvida e repetida tempos atrás. Neste caso a palavra ‘chuva’ significa ‘mergulhe na intensidade dos sentimentos’ para ter intimidade com eles e se reinaugurar ainda melhor depois de entendê-los.  

Músicas, filmes e todo o tipo de arte convidam nossas mentes a aprenderem quase sem querer. Nos roteiros impecavelmente escritos pela Disney, por exemplo, a essência do ser humano demonstra dificuldade em identificar e controlar emoções. Só que sempre há superação no final da trama e esta é a parte boa. No infantil, apesar de profundo Frozen, uma das protagonistas é orientada a usar luvas para não sentir, não demonstrar, nem se deixar perceber quando tiver que enfrentar situações de raiva, sob o risco de congelar tudo ao redor, até o coração de quem ela mais ama, sua irmã Ana.  

A mensagem, no momento em que ela aceita isolar as mãos do toque com o mundo, é que o medo seria seu maior inimigo. Definitivamente ele é um grande adversário de todos nós! Por isso, nada melhor que tentar mostrar às nossas crianças desde cedo sobre o quanto esse sentimento intenso pode ‘engasgar’ na evolução delas (também) no futuro. A mocinha do enredo busca libertação na fuga, mas é a reconciliação que traz segurança e fortalece sua raiz.  

Do beijo de amor verdadeiro, que tanto enfeita o imaginário, ao reconhecimento de que são as diferenças que nos aproximam do sagrado, vamos aproveitar para construir pontes de compaixão inspiradas nas conquistas dos laços afetivos 

Podemos começar tarde ou de novo, tremendo de medo, com falhas e mesmo assim o sucesso ainda será possível! Morremos apenas uma vez na vida, mas vivemos milhares de fases durante a existência. E todas elas ensinam algo.  

Coragem vai bem além de cuspir verdades ou ameaçar fins, numa espécie de mostruários de perdas colecionáveis… Afinal, o que nos prende às certezasA convicção seduzÉ pra isso que proponho atualização de download na alma. Essa nova versão de si é a que liberta os sonhos mais encantadores. Aposte sempre em você, nas suas raízes e nos laços que envolvem tudo aquilo que é importante, lembrando que se apertar demais arrisca virarem nó e se afrouxar podem desatar. E sinta muito, para poder, um dia, dizer também que ‘sente muito’ por alguém. Liberdade é saber respeitar a direção de crescimento das suas raízes mais profundas.  

 *Claudia Queiroz é jornalista.