Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes e Clèmerson Clève

Não foram raros, e quase sempre debates de titãs, os entreveros verbais que os ministro Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa tiveram no STF.

O ex-presidente do Supremo, conhecido por ser um estopim curto, muitas vezes se defrontou com um Mendes habituado a duras respostas. E quem ganhou com isso, de certa forma, foram os que acompanharam os debates via TV do STF.

Mas no essencial, os dois – especialmente no julgamento do Mensalão, não mostraram diferenças essenciais.

Para alguém que conhece bem o ministro Gilmar Mendes, como o professor Clèmerson Clève, da UniBrasil, “Gilmar é, pessoalmente, um ser muito polido, sempre disposto a ouvir seu interlocutor, incapaz de não responder a um telefonema, pronto para orientar estudantes, quando solicitado”.

ENTREVEROS (2)

Mendes é filho de um ex-governador do Mato Grosso, vindo de uma família tradicional do Estado.

Fez ampla carreira acadêmica no exterior, doutorando-se, por exemplo, na Alemanha.

Para o constitucionalista Clève, há um detalhe curioso na vida de Mendes e Barbosa: eles passaram muito próximos, durante todo o curso de Graduação em Direito. Foram colegas de turma.

Um dos momentos mais tensos desses embates verbais deu-se em 2013, quando o ministro Barbosa reclamou a forma como – disse – Gilmar estaria a tratá-lo. Saiu-se então com essa:

– Não aceito que se dirija a mim como trata aos seus capangas…

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Ex-governador Luiz Henrique; vice-prefeito de Içara, Sandro Serafin; Antonio Carnasciali Goulart

EM IÇARA, UMA OBRA DE US$ 2,7 BI

O vice-prefeito Sandro Serafin, de Içara, SC, município próximo a Criciúma, tão logo me é apresentado por um amigo comum – Antonio Carnasciali Goulart -, começa a liberar uma série de informações sobre sua pequena cidade (50 mil pessoas).

Loquaz, com larga experiência em expor ideias, boa parte adquirida como professor universitário, Serafin me surpreende: “Estamos começando a erguer em minha cidade uma fábrica de fertilizantes que, apenas na fase de construção da planta, vai garantir a oferta de 5 mil empregos diretos.”

EM IÇARA UMA OBRA DE… (2)

A informação surpreendente, para mim, é completada com a realidade do investimento total no projeto da indústria, denominada Transgás, de origem americana: serão US$ 2,7 bilhões de dólares.

A unidade entrará em operação em 2018, e vai constituir “alvissareira realidade para o país” – garante Serafin: o Brasil importa hoje 90% dos fertilizantes que consome.

A segunda planta do projeto garantirá gás sintético, formando um grande polo carbo-químico.

A Transgás é controlada pelo norte-americano Adam Victor, e sua chegada a SC foi consequência de contato com ele estabelecido pelo então governador Luiz Henrique, quando os dois participavam em NY de seminário da ONU.

Serafin veio a Curitiba para participar do grande encontro que a deputada Cida Borghetti promoveu em restaurante de Santa Felicidade, semana passada, reunindo os candidatos à eleição do Comites, órgão de apoio ao Ministério das Relações Exteriores da Itália, todos os cidadãos brasileiros com nacionalidade também italiana.

Serafin faz parte da chapa.

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ANIVERSÁRIO DOS ENTULHOS (2)

Retificação essencial: não está na Avenida Sete de Setembro com Rua Carneiro Lobo. Mas na mesma avenida esquina de Bruno Filgueira, o enorme entulho (galhos e troncos de uma árvore de médio porte) que toma parte da calçada e ciclovia. Ontem, o “monumento” à incúria completou 9 dias, embora as seguidas reclamações feitas por moradores da área à Prefeitura.

Porteiros de prédios mais afetados pelas reclamações dos condôminos dizem que têm protocolos de reclamações ao número 156 da Prefeitura, e para ele telefonaram “inúmeras vezes”, nos últimos 9 dias.

A derrubada da árvore foi obra da própria Prefeitura, garantem os reclamantes.

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OPINIÃO DE VALOR

SOCIÓLOGO ESTUDA A FORTUNA DOS SUPER-RICOS

Fortuna de super-ricos é ‘incontrolável’, diz o sociólogo Antonio David Cattani, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com formação na Paris-Sorbonne, diz ter escolhido um caminho diferente de 99% de seus colegas. Enquanto a maioria dos cientistas sociais se debruçam sobre questões relativas a pobreza e a miséria, Cattani resolveu desbravar o outro lado da problemática da desigualdade social – a extrema riqueza, ou os super-ricos.
A escolha já foi mais difícil de ser justificada. Desde que o francês Thomas Piketty tornou-se um best-seller com a tese de que o capitalismo está concentrando renda em vários países, o que ocorre no topo da pirâmide social global tem ganhado um pouco mais de espaço nos debates de economistas e sociólogos – ao menos no exterior.

A entrevista é publicada por BBC Brasil, 10-11-2014.

Para Cattani, no Brasil a situação é um pouco diferente da de outros países, porque aqui ao menos se avançou no combate à pobreza. “Mas só isso não basta. Precisamos reduzir a distância entre ricos e pobres para termos uma sociedade equilibrada, com qualidade de vida e sem violência”, defende.

Em A Riqueza Desmistificada (ed. Marcavisual) – livro escrito durante um ano de estudos na Universidade de Oxford, no Reino Unido – o pesquisador defende que a extrema riqueza precisa deixar de ser um “tabu” para que possamos entender o papel dos multimilionários na economia, na política e na sociedade brasileira.

Eis a entrevista

O que o caso Eike Batista diz sobre o modo como encaramos a riqueza em nossa sociedade?

Eike teve uma ascensão meteórica que envolveu o uso de recursos públicos e, aparentemente, também informação privilegiada. Mas havia um certo deslumbramento da opinião pública por ele. No auge de sua carreira, centenas de pessoas pareciam dispostas a pagar US$ 1.000 ou US$ 2.000 para ouvir uma palestra sua. E não havia qualquer questionamento sobre a forma como seu império foi construído – um gigante com os pés de barro.

De certa forma isso ocorreu porque há um fascínio em torno da riqueza, um deslumbre. Os grandes empresários, executivos, e ricos de uma maneira geral são tratados como superiores. É natural que a riqueza seja vista como algo positivo, que todos almejam. Isso é até legítimo. Mas esse deslumbramento tem impedido uma análise mais rigorosa sobre como algumas dessas fortunas são construídas – o que pode envolver processos abusivos e predatórios, monopólios, vantagens junto ao poder público e outros subterfúgios, como no caso de Eike.

Por que o sr. escolheu estudar os ricos?

Cerca de 99% dos estudos na área de ciências sociais se debruçam sobre os pobres, a classe média e a classe trabalhadora. Poucos estudam os ricos.

Mas em um dos países mais desiguais do mundo o estudo da riqueza é crucial. É o topo da pirâmide social que controla os meios de comunicação, as grandes empresas, os negócios e processos políticos e eleitorais, tomando decisões que afetam todo o resto da população. Ou seja, os ricos e super-ricos ajudam a influenciar processos que determinam a estrutura da sociedade.

Os pobres são milhões, mas têm um poder mais limitado, não estão organizados, estão sob a influência dos meios de comunicações. Às vezes, meia dúzia de megaempresários influencia decisões econômicas que alteram a vida de todos. O financiamento das empresas às campanhas políticas, por exemplo, me parece inconveniente. Por que elas dão milhões para esse ou aquele candidato? De alguma forma, querem retorno – e isso não ajuda a melhorar a qualidade de nossa democracia.

Alguns dados apontam que 1% da população controla de 17% a 20% de toda riqueza nacional. E os ricos, como os pobres, não são autorreferentes ou autoexplicativos. Ou seja, a riqueza ajuda a explicar a pobreza – e vice-versa. Por isso, temos de entender como se estrutura essa sociedade de alto a baixo. Não que os estudos sobre os pobres não sejam importantes, mas eles precisam ser complementados com análises de economistas e sociólogos sobre o topo da pirâmide – e sobre de que forma esse topo está acumulando sua fortuna.

(PROSSEGUE)

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