A complexa discussão de gênero encontra no filme belga “Girl” uma de suas mais pungentes expressões. A direção que evita o melodrama de Lukas Dhont e a atuação de Viktor Pölster renderam diversos prêmios internacionais, como o Caméra d’Or em Cannes, o Queer Palm e o Melhor Performance pelo júri da mostra Un certain regard.

A obra representou a Bélgica no Oscar de Filme Estrangeiro e deve toda essa repercussão à maneira realista e seca de mostrara a história real de um menino que não se identifica com seu corpo e deseja ser bailarina clássica. Isso demanda dois tipos de esforço: o físico, para se submeter às exigências que a profissão traz, e o mental, para enfrentar a convivência do corpo masculino com o sentimento feminino.

O processo sob orientação médica de consumo de hormônios e a preparação para a cirurgia de mudança de sexo convive om o desejo sexual de ter relação com meninos e com a curiosidade das colegas de balé de ver seu corpo ainda masculino. E isso numa sociedade em que a questão é tratada com bem menos preconceito do que nos países latinos.

O filme consegue passar a angústia do protagonista em várias dimensões, desde os pés machucados pela rotina dos treinamentos exaustivos à cena de automutilação do pênis pela impaciência de esperar o momento adequado para se submeter ao processo cirúrgico. A narrativa é valorizada ainda pelo companheirismo do pai em todo o processo, que acompanha essas dores de maneira exemplar – e com um carinho inigualável e comovente sob todos os aspectos.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.