Que filhos vamos deixar para o mundo?

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*por Claudia Queiroz

Quando aprendermos a ser nós mesmos, seremos imbatíveis! Afirmo isso porque tenho uma ‘ser humaninha’ com 3 anos em casa, cheia de personalidade e vontades, capaz de por em xeque incontáveis conceitos que tínhamos sobre a vida e comprovando a ideia de que pode ser o que desejar.

Antes de me gabar como mãe, vou confessar que a prática é bem melhor que a teoria quando o desafio é educar um filho. Vai além de tudo o que já vivi, senti, pensei ou planejei. Então arrisco afirmar que a educação deve ser para toda a família, principalmente quando um novo membro chega em casa.

Minha filha é respeitada, ouvida, atendida e orientada da hora que acorda até ser vencida pelo sono. Isso não quer dizer que fazemos tudo o que ela quer, pelo contrário. Mas se ela quer experimentar andar no encosto do sofá para treinar equilíbrio ou enxergar lá de cima sob um outro ponto de vista, minimizando riscos evidentemente, deixamos que ela faça. Observamos a capacidade que ela possui e acionamos a turma de emergência celestial.

Dia desses, com mais 3 amigos, no parquinho do nosso prédio, um deles subia a escada do escorregador com medo de cair. A mãe estava junto e, cuidadosa, reforçava sempre sobre o perigo: vai cair! Ela tem pânico de escadas. O que aconteceu? Ele desceu ‘escorregando em pé’ e foi perdendo o controle, até que segurei o garoto no ar antes que ele se espatifasse no chão. Minha amiga ficou pálida, tremeu, chorou, sofreu…

Tentei amenizar o drama afirmando que era coisa de criança, que nada grave havia acontecido, mas não funcionou. Ela preferiu ir embora e, mais tarde, disse que o filho dela precisa crescer um pouco mais para poder brincar (sem ela) onde moro.

Bem, logo que a minha filhinha começou a andar, e lá se foram 2 anos e pouco, ensinamos a melhor maneira de subir e descer degraus de uma escada que temos dentro de casa. Se ela já caiu? Sim, claro, mas mostramos, inclusive, que isso aconteceu porque ela não prestou bastante atenção. Machucados passam, lições ficam. Seguramos a mão, mostramos onde ela eventualmente poderia pisar e se apoiar… Deu certo.

Filhos não aprendem com conselhos, mas com exemplos, permissões e algumas restrições. Então, permanecemos atentos e intencionais a cada passo ou brincadeira arriscada, para imediatamente ajudar no aprendizado daquele desafio. Com isso, não cortamos as asas da nossa menininha, apenas indicamos correções necessárias e como atingir melhor performance.

Faz sentido educar assim. Afinal, nutrindo uma criança de sonhos e possibilidades, ela será capaz de construir uma realidade feliz para o que decidir ser na vida. Essa é a maior herança que um pai ou uma mãe pode deixar como legado. Talvez uma das características mais acertadas que, como pais, nos enche tanto de orgulho.

Antigamente os filhos eram educados num contexto de vários irmãos, primos, vizinhos brincando juntos e várias mulheres cuidando e se revezando. Mudou. Uma geração de filhos únicos, cheios de estímulos em forma de filmes, desenhos, games, aplicativos, recursos eletrônicos e infinitas possibilidades que nem sempre consolidam como figuras de referência os adultos mais próximos, geralmente pais e professores.

Voltando a falar de pais atentos… As aulas escolares reiniciaram e Maria, de 8 anos, estava arrasada nos primeiros dias. As melhores amigas ficaram em outra sala e ela estava sentindo-se absolutamente sozinha e abandonada numa turma de desconhecidos. Chorou muito, quis mudar de classe, cogitou chamar atenção das 3 garotas aparentemente líderes que dominam o resto do grupo e assim por diante. Quando ela ligou para a avó perguntando se existia algum remédio para aliviar a dor que estava sentindo, uma enorme luz imaginária amarela alertou a família para a necessidade de intervenção.

Precisamos prestar atenção nos nossos filhos! Eles dão sinais claros quando há algo de errado. Preste atenção!!! Depois não adianta lamentar que não sabe onde errou… A mãe conversou, a avó explicou e todos os pontos positivos possíveis advindos dessa mudança foram colocados para a menina. Aos poucos ela percebeu que poderia ser bacana conhecer outras crianças, ampliando relações e prestando mais atenção na aula – palavras dela.

Note que dialogando com as crianças, respeitando a autonomia em resolver conflitos, porém presentes nessas e outras situações, estamos educando filhos fortes, emocionalmente saudáveis, com todas as condições de se frustrarem e vencerem pelo mundo afora.

Flexibilidade mental. Dar liberdade, para cobrar responsabilidade, gera resolução de conflitos. Isso está faltando por todo canto, mas a partir de agora tem que sobrar aí e aqui. Afinal, crianças criadas em bolhas tendem a se tornar deficientes em autoestima. Acredite, por trás de uma criança que acredita nela mesma, existem pais atentos que acreditaram nelas antes (e em si mesmos também).

Claudia Queiroz é jornalista.