Quando o silêncio fala

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*por Claudia Queiroz

Era só um ensaio de “hora extra” antes da apresentação datada para a próxima semana. Muitas meninas, de todas as idades, encarando maratonas de coreografia, certo? Errado! Eram jovens dançando, descobrindo performances e movimentos de corpo e alma, expressando o que nem sempre é dito em palavras.

Se o corpo fala, como ensina o ‘best seller’ da comunicação não verbal, de Pierre Weil e Roland Tompakow, a vida ensina. Hoje eu fui uma dessas mulheres do ensaio, prestes a realizar o antigo sonho de dançar num grande teatro. Em alguns momentos me senti simplesmente menina, sentada naquele chão sagrado para tantos pés, sons e movimentos amparados ali, mesmo que algumas vezes parecesse nos elevar às alturas.

De fato, fazer o que gosta tem efeitos colaterais desejados, incluindo a forte sensação de poder ao se entregar a algo sem censura. Regras, passos, métricas e ritmos são apenas balizas de uma programação cheia de cores, luzes e brilhos.

Cada uma na sua vez, porém sincronizando juntas. Algumas se destacando porque encontraram sua vibração pulsando ali, outras tantas aplaudindo, torcendo, curtindo e vibrando também.

Percebi naquele instante que eu era mais uma a pisar naquele tablado para revelar minha paixão pela dança, como se meu coração não tivesse batido por décadas desde a outra vez em que ‘quase’ me apresentei.

Na juventude, lá pelos 14 anos de idade, dançava jazz na academia perto de casa. No entanto, não pude participar do encerramento que aconteceu no Teatro Guaíra. O time de vôlei da minha irmã mais nova iria jogar num campeonato no Chile e, para que ela viajasse com a turma, precisaríamos apertar um pouco os cintos…

Muita coisa aconteceu desde então. Mas aquela sensação do ‘quase’ foi acordada este ano, quando decidi ‘cantar com os pés’ e brincar de aprender sapateado, uma modalidade que mistura ritmo, som e técnica de um jeito alegre e cheio de estilo.

Agora, mais velha, farei a estreia no palco do Teatro Positivo, ao som da diva do jazz, Etta James. Tudo bem que por 3 minutos apenas, mas resgatar um sonho 30 anos depois, traz uma carga emocional ainda mais forte. E não importa se faltar perfeição, porque a maturidade nos garante que improvisar com sorriso no rosto e peito aberto surte o mesmo efeito…, afinal de contas, ninguém conhece a coreografia mesmo.

Haverá ali uma luz direcionada em mim, mostrando o meu melhor para todos que estiverem assistindo. E dentre tantos olhos, os da minha filha e do meu marido, brilhando feito holofotes, sinalizando que tudo na vida tem voltas, para fazer sentido os tempos e as pausas nas conquistas dos sonhos e das realizações.

A filhinha, com 3 anos, já avisou: “mamãe, quando você estiver dançando, vou chorar de alegria”, repetindo o que ouviu de mim há 2 semanas, quando se apresentou no ballet da escola. Era a mais nova, a menor de todas, mas a mais doce e concentrada bailarina, que me fez perder a vergonha e gritar, “faz coração, filha”, já que esse era o nosso combinado para o final do espetáculo, momento no qual ela me procurava na plateia escura. Todos riram de mim, …, mas mãe é assim, perde a noção nestas horas e sempre é ‘perdoada’.

Diz a tradição que pais criam e filhos renovam nossos talentos. Choremos então! Dançar é ter música circulando nas próprias veias. Na grande noite, meu coração estará nos pés também, de um jeito bem barulhento e harmônico, como deve ser sempre que compreendemos o impacto causado pelo silêncio.

Claudia Queiroz é jornalista.