Putz, errei a rota!

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*por Claudia Queiroz

Administrar a paz num ambiente calmo, tranquilo, ao som de grilos, corujas e passarinhos é um presente, porém nada desafiador. Difícil é não perder as estribeiras quando tudo parece dar errado e muita confusão ainda está por vir…

Dia desses, de férias com a filhinha de 3 anos, resolvemos virar detetives da natureza. A missão era encontrar um lado pouco explorado do Rio Nhundiaquara, importante na região litorânea do Paraná e mais conhecido em Morretes, cidade onde o turismo explora passeio de boias pela correnteza.

Saímos de casa farejando aventura. Só não imaginava quanta! Sem protetor solar para repassar, mas com água de coco na garrafinha, seguimos na direção contrária ao habitual. Partimos de Antonina. Digitei “Rio Nhundiaquara” no aplicativo que tem a voz “cover” do jornalista William Bonner orientando o trajeto, e fomos contemplando as belezas regionais esculpidas por Deus, mas pouco conhecida pelos mortais.

Era um passeio que levaria em torno de 30 minutos até o destino. Passamos por chácaras, charretes, cavalos, um bom trecho de floresta nativa com ponte estreita e caminho cheio de pedrinhas soltas, onde passa um carro por vez. Confiantes, quase chegamos onde planejamos. Digo quase, porque a estrada acabou. Terminou num nada, mas com vista bonita e com a voz “conhecida” insistindo para permanecermos à direita…

O aplicativo indicava 600 metros para terminarmos à pé e chegarmos ao local. Glup. Isso não estava nos planos! Poxa William! Não daria para chegar à foz do Rio com uma criança no colo e o calor escaldante brotando do chão.

Decidi retornar à cidade. Foi quando caímos com o pneu dianteiro do carro numa valeta de esgoto na manobra catastrófica de retorno. Ela era imperceptível, mas encalhamos… Só um guincho para nos remover do local, sem sinal de telefone ou internet, e com uma criança pequena a tiracolo. Que desastre!

Com ela nos braços, subi até o ponto onde havia um mínimo risco de vida do celular. A cada tentativa de checar a disponibilidade da rede de telefonia, a bateria do meu aparelho esvaziava. Estava sem o carregador do veículo. Consegui ligar para uma amiga que mora em Antonina. Pedi socorro do jeito mais objetivo possível pra não cair a ligação sem a informação de onde estávamos e ela prometeu me enviar ajuda.

Enquanto esperávamos, vivi o drama do personagem de Roberto Benigni, no premiado “La vita é bella”, em que o pai distraía o filho da triste realidade nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial e fingia brincarem de um jogo. Com minha filha, estávamos em meio à “floresta”, explorando a vida animal com galinhas, patos, gansos e o que mais aparecesse naquele galpão gigante e abandonado próximo ao nosso carro atolado.

Durante todo o tempo não pensei em desgraça alguma. Minha fé não permitia. Precisava ser forte. Mantive a voz doce com ela. Estava atenta aos sinais. Alguma coisa me garantia aquela sensação de segurança de que tudo terminaria bem… Porém, a construção enorme e abandonada, com aqueles animais em torno, era ao menos um cenário estranho. E sabemos, “shit happens” (não vou traduzir para não perder a poesia da prosa). Meu pensamento único era: Deus, não nos deixe anoitecer aqui!

Pouco mais de 1h de espera, não sei ao certo, e eles chegaram. O marido da amiga junto com outros rapazes, em dois carros, sendo uma caminhonete grande, incrédulos por nos encontrarem naquele local. Nos tiraram literalmente do buraco. Respirei mais aliviada. Enfim, voltaríamos para casa. Yhuuu. Escoltadas pelos veículos até ficarmos totalmente fora de perigo, eufórica, a filhinha gritou: “Que dia legal!”

Ufa! Definitivamente não dá para abandonar a fé, nem confiar na imitação da voz global… Viva nossos amigos “anjos” e a imaginação das crianças. Isso nos salva! Afinal, não importa o que aconteça, a vida precisa continuar bela, mesmo quando usamos um chapeuzinho vermelho…

Claudia Queiroz é jornalista.