A forma como uma mulher se veste não define, necessariamente quem ela é, quer, ou do que ela é capaz. Mas, certamente influencia como ela se sente em determinados ambientes outrora considerados inapropriados ou hostis para o sexo feminino, como por exemplo, o meio corporativo e político. A roupa pode funcionar como uma armadura, em especial nestas épocas de empoderamento, palavra que prefiro substituir por protagonismo.

Entre as décadas de 1970-80, o escritor John T. Molloy popularizou o termo power dressing em duas de suas publicações; Dress for success (1975) e Women dress for success (1980), este último dirigido às mulheres que apenas iniciavam seu ingresso nos ambientes corporativos e empresariais, com dicas sobre como apresentar-se de forma apropriada e causar a impressão correta. Segundo o escritor, as mulheres, não obstante o esforço dos movimentos feministas, ainda se vestiam como objetos sexuais.  Molloy enumerava como adequadas as cores cinza, preto e azul marinho para ternos e tailleurs, camisas brancas, e no máximo, um pequeno foulard discreto no pescoço. O livro ensinava que, para sermos respeitadas no universo predominantemente masculino, deveríamos vestir uma espécie de camuflagem, roupas que imitavam os sisudos ternos, submetendo-nos ao um processo de mimetismo para “integrar-nos” ao meio. Uma espécie de uniforme para enfrentar o mundo dos homens, mas que, frequentemente quando adotado era confundido com a vestimenta obrigatória das comissárias de bordo de empresas de aviação….

Mas, então, em 1979, a Dama de Ferro ascende ao poder. A mais longeva chefe de governo da Grã-Bretanha, Margaret Thatcher, primeira mulher a assumir tal cargo, inaugura novo dress code do poder feminino, tornando-se um ícone desse estilo com seus tailleurs em cores mais vivas como diferentes tons de azul, verde, rosados, amarelos, ombreiras largas, broches, pérolas, e impecáveis camisas de seda estampadas, adornadas com grandes laços, transmitindo autoridade e feminilidade ao mesmo tempo.

Ainda que não se aprecie seu estilo, não há dúvida de que Margaret Thatcher protagonizou uma mudança de paradigma do power dressing, tornando-se uma das primeiras referências de como mulheres em postos de comando passariam a se vestir. Ao falar sobre seu guarda-roupa, enfatizava a importância de se vestir de maneira confortável, o que significa encontrar um estilo pessoal que seja, ao mesmo tempo adequado para a ocasião, e que transmita autoconfiança. Peças bem cortadas, tecidos de bom caimento e qualidade, sapatos elegantes, porém cômodos. Sempre agregando elementos femininos como camisas em seda, lenços e foulards coloridos ou em estampas florais, românticas e étnicas, peças em renda, acessórios como broches e colares. A introdução destas referências femininas, antes impensáveis em certos ambientes predominantemente masculinos, podem ser interpretadas como uma afirmação da conquista de um espaço pelas mulheres, que não mais limitam-se ao papel de coadjuvantes, mas, protagonistas e donas de suas ações.

Christine Lagarde, Diretora-Gerente do FMI – Fundo Monetário Internacional, e primeira mulher a ocupar o cargo, Anne Hidalgo,  primeira mulher a eleita para a prefeitura de Paris, Nanci Pelosi, líder da oposição democrata do Senado norte-americano, Theresa May, ex primeira-ministra britânica, Kolinda Grabar, primeira mulher presidente na Croácia, Michelle Obama, que nunca exerceu cargo eletivo, mas tem capital político e carisma para tanto, Maria Silvia B. Marques, ex-presidente do BNDES, e agora presidente do banco Goldman Sachs Brasil; são alguns entre tantos exemplos desse novo dress code  do poder. Exemplares e bem-sucedidas em suas carreiras, não abrem mão de sua feminilidade.

Compomos metade da população mundial. Quarenta por cento dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Na indústria da moda, aproximadamente 80% da mão-de-obra é feminina. O brasil tem 24 (vinte e quatro) milhões de mulheres empreendedoras segundo o SEBRAE. Ainda há muito a conquistar, no entanto. Mas, a moda, normalmente associada à estética e à frivolidade passa a ser um importante componente desse novo power dress code simbolizando a conquista de um espaço e identidade próprios da mulher, que não mais aceita se mimetizar ao ambiente, mas sim, ser parte ativa,  agregando a este universo novos paradigmas, culturas e comportamentos.

Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins

Advogada especialista em Direito e negócios internacionais e especializada em Direito da Moda.