Portugal quer desbancar Chile em venda de vinho ao Brasil

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MAURO ZAFALON*
ALENTEJO, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – Olivais, vinhas, fruticultura e gado passaram a ser mais constantes nos campos de Portugal nos anos recentes. E isso foi possível graças à construção do Algarve, o maior lago artificial da União Europeia.
Água para a irrigação fez os portugueses deixarem de lado as tradicionais culturas de grãos, mais sujeitas às condições climáticas, e adotar outras mais rentáveis. No início dos anos 1990, Portugal tinha 950 mil hectares com o cultivo de cereais de inverno. Neste ano, são 121 mil.
Foi o que fez a família de Sofia Noronha Lopes na centenária fazenda Comenda Grande, localizada no Alentejo. Eles deixaram os cereais para trás há uma década e fizeram da fazenda uma área tão diversificada que vai da criação de galinhas e da produção de vinho ao enoturismo.
“Os preços dos cereais caíram, a produção tornou-se antieconômica e tivemos de fazer a reconversão”, diz Sofia.
A mudança trouxe investidores estrangeiros, e o preço da terra em Portugal triplicou nas últimas duas décadas. Os investidores chegaram do Brasil, dos Estados Unidos, da China e de países da própria Europa.
O resultado foi que a produção aumentou, e os portugueses buscam agora ampliar seus negócios no mercado externo. O Brasil é visto como uma região de grande potencial para eles.
Os portugueses, que já têm os brasileiros como o principal mercado para o seu azeite, querem agora desbancar os chilenos e se tornar também os maiores exportadores de vinho para o Brasil.
Em 2018, os chilenos exportaram 51 milhões de litros de vinho e de espumantes para o Brasil. Os portugueses, em segundo lugar, 18 milhões.
Nem todos acreditam nessa possibilidade, mas Vitor Nunes, gerente de exportação da Cartuxa, da Fundação Eugênio de Almeida, prevê essa liderança em até dez anos.
A empresa, que produz 7 milhões de garrafas por safra e deverá atingir 8 milhões em 2022, coloca 35% de seu produto exportado no Brasil.
Atualmente a competição dos produtores europeus com os chilenos é muito difícil, devido à carga tributária. Mas o acordo União Europeia com o Mercosul vai abrir mais as portas para Portugal, afirma ele.
“No futuro a definição do vinho vai ser pela qualidade, e não pelo preço. O valor médio vai aumentar.”
Alexandre Relvas, enólogo da Casa Relvas, acredita no potencial do mercado brasileiro, mas acha difícil uma liderança de Portugal. O acordo comercial entre os dois blocos e a unificação de impostos, porém, dariam maior competitividade ao vinho português.
“O brasileiro gosta de um vinho fácil, e aí está a vantagem do Alentejo. Temos um vinho frutado e sem taninos fortes.”
Segundo Relvas, o Brasil é um dos países onde melhor se trata o vinho. Esse cuidado vai do transporte e armazenagem à temperatura.
Além disso, a presença de profissionais com conhecimento em vinho nos restaurantes ajuda a aumentar o consumo.
Para Daniel Franco, da Casa Santa Vitória, é preciso foco na qualidade. O Brasil tem um potencial grande, mas também tem um consumidor exigente.
As vinícolas do Alentejo têm duas marcas que devem estar presentes no produto da região: qualidade e sustentabilidade. A CVRA (Comissão Vitivinícola Regional Alentejana) criou um plano de sustentabilidade para garantir produção ecológica, competitividade e sustentabilidade, preocupações que ainda é mais presente entre consumidores europeus.
“O negócio do vinho é difícil, mas o Alentejo criou um mercado muito forte”, segundo Pedro Schmidt, diretor de produção da Herdade Paço do Conde.
Para ele, o Alentejo começou a ter maiores cuidados com o produto a partir de 1990. Foi difícil construir essa marca, mas é preciso muito cuidado para não perdê-la. Schmidt diz que de todo o vinho certificado consumido em Portugal, 43% é produzido no Alentejo.
Rui Veladas, enólogo da Carmin (Cooperativa Agrícola de Reguengos de Monsaraz), afirma que uma das características dos vinhos da região é um sabor mais leve.
Para Veladas, a cooperativa investe no Brasil porque é um mercado que tem muito a crescer. Mas apostam também na China, que busca vinhos de primeira linha.
A sustentabilidade também faz parte da produção da Herdade Esporão, que tem um vinhedo todo orgânico. “A planta tem de ganhar a própria resistência”, diz o enólogo David Baverstok.
A disposição de água, no entanto, é fundamental para o desenvolvimento da videira. “É preciso olhar a água como solução para o futuro”, diz.
A mudança climática, porém, está afetando a produção, que é de 15 milhões de garrafas por ano. Na safra mais recente, uma barragem de cem hectares quase secou.
Luis Duarte, enólogo da Herdade dos Grous, diz que não se usam mais agroquímicos nas lavouras da empresa.
“É preciso reparar os erros do passado. A partir de agora, relatórios de sustentabilidade vão ser mais importantes do que os resultados do Ebitda [lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização]”, afirma Duarte.
Entre as ações, a vinícola buscou biólogos para aumentar a biodiversidade e usa plantas adaptadas ao ecossistema. Fez uma volta atrás, criando ambiente para roedores e insetos que combatam pragas e doenças.
“A Europa fez muita coisa errada, mas vocês [brasileiros] não devem fazer igual. É ridículo para a Europa pedir as contas apenas para o Brasil. O mundo vai ter de pagar por essa riqueza que o Brasil tem.”
Para a enóloga Maria Clara Roque do Vale, da vinícola Monte Capela, os muitos tipos de solos e de castas de uvas permitem à região do Alentejo uma diferenciação, que será a exigência do vinho no futuro.
Essa diferenciação pode ser conseguida até no manejo das culturas. Na Herdade do Mouchão, a colheita começa às 4h30 para manter o frescor das uvas.
Os vinhos são produzidos com técnicas tradicionais implantadas em 1901, inclusive com a tradicional pisa da uva e prensa manual.
Com uma produção de 670 milhões de litros, Portugal é o 11º no ranking dos maiores produtores mundiais de vinho, segundo a OIV (organização internacional do setor).

*O jornalista viajou a convite da CVRA e da Cepaal.