Formigueiro feliz

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*por Claudia Queiroz

Estávamos no ritual de um almoço improvisado na varanda da casa de Antonina, região litoranea do Paraná. Somente eu e a filhinha de 3 anos. Uma mesa ao lado da rede, onde ela alternava as mãozadas na batatinha palha com os balanços.

Apesar da repetida advertência quanto comer com as mãos e deixar cair comida no chão, …, criança testa e duvida da gente. Porém não demorou para uma formiga aparecer e buscar uma batata maior que ela.

Rápida, focada e silenciosa, num vapt-vupt, saiu carregando o banquete pro formigueiro inteiro!

Foi aí que nosso drama começou.  A cena que provocava encantamento em mim gerava tristeza profunda na menina, inconsolável com a perda de uma batata palha pro animalzinho.

Ela queria aquela! Dizia: “mamãe, pega pra mim! Eu quero essa”, referindo-se a que ia embora nas costas da formiga ousada.

Evidentemente que não frustrei a formiga. Aquele troféu merecia ser exibido e compartilhado! O esforço da conquista pelo objetivo deste bicho tão pequeno era imenso e louvável.

Admirada, porém reconhecendo a dor da perda que minha filha acabara de sofrer, mostrei o prato dela ainda cheio de batatinha… Mas meus argumentos não valeram.

Haverá festa no formigueiro! Você ajudou a formiguinha! Parabéns, filha… Nada de cessar o pranto.

No balão imaginário acima da cabeça dela consegui interpretar apenas clássicas frases a respeito do que ela ouviu e não deu importância antes do fato narrado acontecer: “Deixei cair, a formiga veio mesmo, minha mãe estava certa, a culpa foi minha…” Quem nunca chorou o leite derramado que levante a mão.

Mas por que damos tanto significado ao que perdemos? Por que temos dificuldade em aceitar que coisas ruins acontecem? Por que o prato cheio de batata não foi suficiente para encher a boca e secar as lágrimas?

Somos egoistas por natureza e consequentemente ingratos. O dia em que aprendermos a domar nossas reações aos sofrimentos e olharmos de verdade para tudo o que temos ou restou da perda, viveremos em estado de graça.

A filhinha ainda tem muito pra viver e aprender sobre isso. Cabe a mim e ao pai dela ensinarmos a administrar e equalizar emoções. Mas e você, será que já superou perdas ou as adversidades do dia a dia?

Olhar pra trás, onde mora o passado, é sofrer duas vezes! Deixemos o que passou e vamos reciclar a arte de sorrir, mesmo que o mundo diga não.

Filhos transformam a vida da gente. Todos os dias eu poderia contar várias histórias do que aprendo sobre valores básicos e essenciais com a minha. Aproveito para agradecer a oportunidade de ser mãe e de ter uma filha maravilhosa, que me ensina e me renova. A festa no formigueiro é só uma desculpa para ser feliz sob o ponto de vista de quem ganha uma medalha após merecido esforço.

A propósito, depois do ocorrido nenhuma outra formiga apareceu por aqui… A festa deve mesmo ter sido bem boa!

Claudia Queiroz é jornalista.