FLÁVIA MANTOVANI E RAFAEL BALAGO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A Polícia Federal realizou nesta quinta (31) duas operações contra uma rede de contrabando de pessoas acusada de enviar, há pelo menos cinco anos, milhares de imigrantes do sul da Ásia clandestinamente para os EUA, passando pelo aeroporto internacional de Guarulhos.
As operações, as maiores já feitas no Brasil para esse tipo de crime, são parte de uma cooperação internacional com os EUA e ocorreram simultaneamente em 20 países da América do Sul e Central, resultando na intensificação do controle migratório ao longo da rota.
Oito foram presos temporariamente, e 18 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em São Paulo, Embu das Artes (SP), Taboão da Serra (SP) e Garibaldi (RS). Também foi feito o bloqueio de 42 contas bancárias.
Os detidos são cinco bengaleses e três paquistaneses. A PF aponta como líder da quadrilha o bengalês Saifullah Al Mamun, que está no Brasil ao menos desde o fim de 2013 e é dono de agência de turismo e de mercado no Brás, região central de SP. Segundo a PF, ele é considerado pelo ICE (órgão responsável pelo controle de fronteiras dos EUA) o maior contrabandista de pessoas do mundo a levar imigrantes para o território americano.
De acordo com a investigação, os suspeitos cobravam cerca de R$ 47 mil para levar, todo mês, centenas de estrangeiros para os EUA. A maioria vinha de cinco países: Afeganistão, Bangladesh, Índia, Nepal e Paquistão. A PF identificou cerca de 500 vítimas, das quais 84 foram detidas nos Estados Unidos por não terem documentos. Entre elas, havia menores de idade, inclusive desacompanhados.
Segundo o delegado Milton Fornazari Jr., nos cerca de 90 dias que levavam até até os EUA, eles eram submetidos a vários riscos, de afogamentos a sequestros -a PF diz que oito bengaleses sequestrados em junho deste ano por cartéis de drogas na fronteira com os EUA saíram do Brasil enviados por essa quadrilha.
A operação também constatou que, durante o tempo em que permaneceram em São Paulo, os imigrantes sofriam maus-tratos, como cárcere privado e agressões físicas e psicológicas. Nas buscas nesta quinta, foram encontrados entre cinco e sete imigrantes em uma casa em São Paulo, que foram encaminhados para prestar depoimento.
As operações foram batizadas de Estação Brás, em referência ao bairro onde ocorreria a atuação do grupo, e Bengal Tiger, em referência à origem de parte dos imigrantes.
Segundo a apuração, o grupo movimentou no Brasil, de 2014 a 2019, ao menos US$ 10 milhões (R$ 41 milhões), que passaram por diversas técnicas de lavagem de dinheiro.
Além dos oito detidos, um advogado brasileiro é suspeito de participar do esquema, fazendo petições de refúgio para as vítimas no Brasil e acompanhando seu desembarque. Ele foi alvo de busca e apreensão. Outro brasileiro que trabalha no consulado do Equador e um bengalês que teria papel minoritário na organização também são suspeitos.
Os inquéritos foram iniciados em maio de 2018, após cooperação com o ICE.
A investigação da PF apontou que o grupo providenciava para os imigrantes solicitações de refúgio ou documentos de viagem falsos (passaportes, vistos e cartas de tripulantes marítimos). Com esses documentos, eles viajavam de avião até o aeroporto de Guarulhos. Após serem recebidos pela organização criminosa, seguiam para Rio Branco, onde atravessavam a fronteira com o Peru e prosseguiam por terra até a fronteira do México com os EUA.
Segundo a polícia, os indícios apontam que os contrabandistas identificados em São Paulo dominavam toda a rota de viagem, por meio do contato com outros associados em todos os países.
Os investigados responderão por contrabando de migrantes, lavagem de dinheiro e organização criminosa, com penas de 3 a 10 anos de prisão, além de outros delitos.
Em agosto deste ano, a PF deflagrou a operação Big Five, que também teve como alvo o contrabando de pessoas que vinham da África para os EUA. “São duas rotas diferentes: uma do leste africano e outra do sul da Ásia. Ambas envolvem São Paulo como a principal porta de entrada no continente”, diz Fornazari.