*por Claudia Queiroz

Um dia você acorda completamente sozinho. É a única pessoa viva em todo mundo. Não há mais nada nem ninguém do que havia até pouco tempo. Mas sua memória permanece intacta. Sem entender direito o que está acontecendo, encontra um bilhete endereçado a você como um ‘presente para experimentar a nova fase’, em que poderá escolher apenas uma de três opções de desejos a serem realizados. A primeira permite trazer de volta as pessoas mais importantes da sua vida; a segunda, todas as coisas que o dinheiro pode comprar; e a terceira, oferece a eternidade.

Parece óbvio e não requer muito esforço para encontrar a resposta ideal. Com certeza desejamos reencontrar quem amamos… Mas, por que ainda dormimos e acordamos suspirando por coisas ao invés de momentos ou relacionamentos? Por que os sonhos de consumo nos fazem brilhar tanto os olhos? Por que pensamentos divagam entre passado e futuro, deixando um vácuo no agora? De fato, precisamos perder pra aprender a ganhar?

Eu adoro histórias. Minha base emocional sempre foi construída nas relações. Aprendo todos os dias e converso com qualquer um… É uma experimentação fascinante. Melhor ainda quando essa troca acontece com as crianças. Aliás, elas nos ensinam demais sobre o que importa na vida. Crescemos e esquecemos.

Que brinquedo eletrônico ou atividade é mais interessante pra elas senão a interação com a gente? Brincar, correr, imitar animais, fazer adivinhações, esconde-esconde, massinha, desenho, dança, música… Querem passar o tempo assim, desvendando o ‘nada’ pra nós, porém descobrindo ‘tudo’ o que conseguem com 100% da dedicação. Quando cedemos aos encantos destes olhinhos pequenos e sorrisos gigantes, deixamos de lado as futilidades.

Dia desses, assisti com minha filha ‘Shrek Para Sempre’, na minha opinião, o melhor de toda a série sobre o reino ‘Tão tão distante’. Nele, o ogro, cansado da rotina, quer escapar da mesmice por um dia de folga na vida que está levando. Isso envolve aquele pacote da falta de tempo e bagunça que filhos, esposa e família exigem – realidades que conquistou no filme anterior. O conflito do que ‘foi um dia’ com o que ‘se tornou’ é evidente e facilmente identificável… Mas ele assina um contrato maluco ‘por um dia diferente’ e isso muda tudo! Não há mais filhos, esposa, família e a rotina que altera toda a lista de prioridades… O drama consiste em admitir que o que parecia tortura era paraíso e, pra isso, ele luta tentando desfazer o acordo mal feito.

Assim como o personagem, quem nunca quis voltar no tempo para ter ou ser como era? Quem nunca sonhou com uma folga da realidade? Isso é humano! Mas o que importa é descobrir que as melhores coisas da vida não são coisas. E todas elas vieram como resultados de escolhas.

Se você já precisou de um ombro amigo ou da cumplicidade do silêncio de alguém deve saber do que estou falando. Somos seres relacionais e as experiências que adquirimos com pessoas é o que verdadeiramente nos ajuda a lapidar a própria existência, com mais significados.

Hoje a vida digital tem muito mais pressa de consumo de informação. Os bláblablás das telas intermináveis emendam um tema no outro, como um mosaico de interesses individuais. A interação é quase toda virtual. Os ‘likes’ distantes. Recursos de filtros de imagem são poderosos aliados nas postagens de vidas perfeitas, que todos sabemos não existir, e a quantidade de botox facial ultimamente aplicados para minimizar as marcas do tempo tentam enganar o calendário. Às vezes até conseguem!

Ups, chegamos em algo que merece realmente uma pausa. Não de sorrisos, mas das expressões e impressões gravados por eles na nossa alma. Até quando vamos nos iludir com o que fazemos da vida? O que se leva dela mesmo? Nunca espere para acordar e, sem saber o que sentir, perceber que tudo passou. Acabou. Vai lá! Você não está sozinho…, Shrek!

Claudia Queiroz é jornalista.