*por Claudia Queiroz

Confortável em falar da vida alheia? Onde moram suas verdades? Por que tanta gente fica feliz com a desgraça do outro? Qual a satisfação em perceber alguém em apuros e contribuir para piorar a situação com um comentário maldoso ou em plantar uma semente cheia de indecência? Quem nunca fez isso? Quem sempre faz? Já passa da hora de pararmos de nos colocar como juízes da moral e bons costumes nas rodas de conversa. Ou não crescemos e continuamos brincando de “telefone sem fio”, onde a mensagem é mudada a cada transmissor? Que tal buscarmos, no nosso umbigo, uma boa dose de senso crítico para enxergar a realidade?

Frequentemente ouço detalhes de versões sobre os outros e posso garantir que, pra mim, tanto faz… Minha obrigação é não passar pra frente algo que não me agrega ou que pode prejudicar alguma ‘vítima’. Somos todos parecidos no ciclo da vida. Uns mais afortunados, outros menos, mas nascemos e morremos seguindo um fluxo biológico idêntico.

Não há tom mais pobre que o da arrogância humana. Apontar o dedo para aquela moça ou reforçar que este homem fez isso ou aquilo não nos torna melhores… Quem precisa disso para manter ouvidos atentos tem muito mais a ouvir de si do que falar dos outros. Só não sabe disso ainda. Fofoca é algo que me dá tanto nojo… Boatos que viram fatos instantaneamente… E depois?

O destino de cada um merece ser descoberto, decifrado, traçado e superado. Imagine que fantástico se todas as pessoas pudessem ver defeitos e qualidades sem lentes de aumento. Lupas no que podemos melhorar, humildade para inspirar, equilíbrio ético… Utópico? Evidente que não, apenas meu ponto de vista. Assim como as verdades desapegadas das versões.

Todos os dias agradeço à minha filha por tudo o que aprendo com a existência dela. Com menos de 3 anos de idade, não faz ideia do que estou dizendo, mas já respondeu com o clássico “de nada” algumas vezes. Sinaliza usando a cabeça, demonstrando que entendeu a frase, reconhece que é importante pra mim e, dia desses, antes de dormir, disse: mamãe, fala obrigada pra mim sem me beijar! Atendi ao pedido sorrindo. Mas todas as noites temos o hábito de agradecer as coisas boas que aconteceram. Pedimos a benção para uma lista de gente (incluindo personagens infantis e bichos). Pontuo coisas positivas do desenvolvimento dela e aproveito para refletir sobre as mudanças desta fase.

Crianças se espelham no que fazemos e não no que ordenamos. Quando soubermos ser melhores exemplos, teremos uma geração coerente, consciente, evoluída, madura, feliz, grata. O veneno que ‘queremos’ que o outro ‘engula’ naqueles comentários ‘espontâneos’ e cheios de más intenções, silenciosa e lentamente no afoga. Cria ranço, mágoa, barreiras e dores que revelam uma infinidade de sonhos contidos, porém mal contados.

Antes de abrir a boca, digitar ou postar por aí, reflita no que agrega tal informação. Repense. Às vezes pause. Outras tantas, cale. Na maioria das vezes o silêncio pode ser seu maior aliado. Isso é algo que você também pode passar intencionalmente aos seus filhos. Atitude assim é tão ou mais admirável quanto lindos olhos azuis.

Claudia Queiroz é jornalista.