*por Claudia Queiroz

Ele merecia ter uma filha! Pulsou a vida até pouco tempo atrás com o coração batendo em dieta. Migalhas de amor em refeições não satisfaziam tamanha fome. Dia desses, enquanto tirava um cochilo no sofá, ela beijou-lhe o rosto por 3 vezes dizendo: – te amo papai. E numa mistura de sonho e doce realidade, permaneceu com os olhos fechados para curtir o ineditismo do momento.

A menininha tem quase 3 anos e mudou completamente a rotina do homem que aprendeu a se bastar sozinho. Acho que desaprendeu com a chegada dela, mas isso não vem ao caso. Testemunhar o despertar do sol, comemorar a estrelinha ainda brilhando no céu pela manhã, voar em tapete mágico, assistir documentários animais, como das baleias jubarte, araras azuis e de outros filhotes, estão criando uma rotina afetiva incrível entre pai e filha. Laços que ficarão marcados na memória desses dois amores da minha vida.

Muito além de enaltecer o quanto o pai da minha filha é especial, gostaria de chamar a atenção para a função de pai. Mais que provedor ou mantenedor de segurança, o pai consegue ensinar a ela sobre os riscos calculados na queda da escada ou dos saltos em altura na cabeceira do sofá…  Limites, pontos finais, mudanças de parágrafos nas histórias que estão sendo escritas na vida dela muito antes de aprender a ler as palavras.

Alfabetizada no amor, nossa filha vem sendo preparada para reconhecer o porto, mesmo quando ela se tornar dona das rotas de chegadas e partidas das grandes navegações que irá realizar. Por enquanto ganha uma ‘genética cerebral’ moldada por lições que vão desde aprender a pensar, quanto como sentir.

A contagem regressiva (5,4,3,2,1) para sair de um castigo e joaninhas imaginárias, que auxiliam na autocura das pancadas inesperadas, garantem a ela poder gradativo na solução dos próprios problemas, proporcionais à idade dela. Logo conseguirá compreender que todos estes dramas têm prazo de validade.

Qualidade de tempo juntos. É disso que estamos falando! Sementes plantadas numa infância carregada de sonhos. A filhinha pode ser o que ela quiser. A única certeza que terá é a de que sempre foi muito amada pelos pais. Se vamos errar? Evidente que sim, e várias vezes! Mas tentando fazer o melhor. Ela saberá disso sem que precisemos contar infinitos blábláblás.

Ensinar que vale à pena sonhar mesmo por algo que seja aparentemente impossível, como escalar montanhas improváveis ou enxergar o inimaginável. Essencial é nutrir tudo isso com orgulho pela coragem latente. Porque mais importante que qualquer chegada é o caminho. Esta é a maior e mais significativa herança que um pai passa como legado à sua cria.

Na resposta diária a tanto estímulo, percebo boa dose de ousadia instantânea na filhinha. Sem saber que é impossível, ela vai lá e faz. Esta frase, que adoro, traduz a vontade dela em acreditar, transgredir, inspirar, satisfazer, inovar… Nossa própria evolução pessoal nos exige…, mas muitas vezes crescemos e esquecemos. Sobrevive quem se adapta e reinventa a própria história. Pais servem para ensinar tudo isso.

Não é à toa que Deus é pai. Ele ilumina destinos. Sombras, tropeços e percalços aparecem quando desaprendemos a reconhecer sinais. Toda superação nasce após erros e quedas. Enquanto isso, como mãe, cuido dos dodóis com carinho e ‘band-aids’ da Frozen, aquela personagem que canta “Let it go”, em português, deixe ir. Sim, até ‘deixo ir’, e desta vez sou eu que continuo com o refrão da música que nunca termina: “não posso mais segurar…”.

Claudia Queiroz é jornalista.