Shakespeare and Company, às margens do Sena, uma das atrações de Paris

Há uma livraria em Paris, vizinha da catedral de Notre Dame, que é verbete em muitos guias turísticos. Com justiça. Está há 68 anos no número 37 da rue du Bûcherie, num prédio que data do século 16 e que já abrigou um mosteiro. Mas sua história é mais antiga: remonta há exatos 100 anos, pois abriu suas portas pela primeira vez em 11 de novembro de 1919, em outro lugar da capital francesa, numa transversal da rue de l’Odéon, sob o comando de uma norte-americana de Princeton, Nova Jersey, mas criada em Baltimore, Maryland, ousada e competente, chamada Sylvia Beach. Voltarei a ela depois de falar da obra do homem que ressuscitou a livraria em novo endereço e a transformou, de novo, em um ícone parisiense: George Wittman.

Rue de l’Odèon, no 6º arrondissement: ao fundo, o famoso teatro Odéon

Ingressar na livraria através de uma de suas portas estreitas é como se transformar em passageiro de uma máquina do tempo, esgueirando-se pelas salas e corredores repletos de livros, um labirinto que vai envolvendo o visitante admirado ante uma raríssima coleção de primeiras edições, livros novos (predominantemente em inglês, como a original), esculturas, velhas máquinas de escrever distribuídas sobre as mesas nos diversos espaços, fotos de escritores famosos, como Hemingway, Joice, Scott Fitzgerald, herdadas da primeira fase, o piano à disposição de quem souber tocar. Um poço de luz é habitado por uma gata feroz, como informa o aviso. Aliás, gatos sempre se incluíram entre os “inquilinos” de George.
No primeiro andar, além das obras raras, está a biblioteca e o sebo, com seu acervo de livros usados que já passaram por mãos famosas e entretiveram gerações. George morava num apartamento acima da livraria, mas a própria livraria acabou, ao longo de décadas, se transformando no pouso seguro de escritores iniciantes e estudantes que não tinham recursos para pagar um hotel ou alojamento. Havia camas por toda parte, nem sempre confortáveis, entre as estantes. Sua única exigência era que cada um lesse um livro por dia. E ajudasse em tarefas corriqueiras, como limpeza, arrumação das estantes e até no caixa.

Notre Dame (aqui, depois do incêndio): Wittman dizia que a livraria era um anexo da catedral

Wittman era um sujeito exótico, nascido também em Nova Jersey, como a antecessora Sylvia, mas na cidade de Orange; seu pai foi professor, escritor de livros didáticos e dono de jornal. George, sempre irrequieto, marxista convicto, acabou se transformando num aventureiro, correu mundo, trabalhou em navios cargueiros, foi ajudante de garçom, entre tantas outras coisas, aprendeu idiomas, certa vez foi preso e depois de servir o Exército criou sua primeira livraria, em Massachussets (EUA). Seu lema sempre foi “Não ler é pior do que não saber ler”, como revela o jornalista e escritor norte-americano Jeremy Mercer, que morou na livraria durante quatro meses, em seu “Um livro por dia” (Editora Casa da Palavra, 2007).
Já residindo em Paris, Wittman decidiu fundar uma livraria num espaço privilegiado às margens do Sena à qual deu o nome de Le Mistral, inaugurada em agosto de 1951. E ali instalou uma cama para receber amigos que precisassem de um lugar para dormir; depois criou o hábito de servir sopa gratuita a estudantes sem recursos, uma tradição que se perpetuou ao longo dos anos. Consta que chegou a abrigar 40 mil pessoas. Era extremamente econômico nas despesas mas mão aberta com os jovens que ali tinham também um lugar para produzir seus escritos. Nas noites de domingo, havia a tradição do chá, preparado em panelões. A livraria ficou também famosa pelos saraus literários. Logo à entrada, mandou pintar a frase “Seja gentil com os estranhos, pois eles podem ser anjos disfarçados”. George dizia que a casa era uma utopia socialista camuflada em livraria.
Wittman decidiu mudar o nome de Le Mistral para Shakespeare and Company em 1964, ano do quarto centenário de nascimento de William Shakespeare, o famoso dramaturgo inglês de Strattford upon Avon. Consta que havia recebido, anteriormente, autorização da própria Sylvia Beach, que havia fechado a livraria em 1941, em função da ocupação nazista de Paris. Wittman também teria herdado, ou adquirido, boa parte do acervo do endereço da rua de l’Odéon.
Por tudo de bom que proporcionou aos jovens escritores carentes ao longo de décadas – morreu aos 98 anos em 15 de dezembro de 2011 -, George, ateu, costumava dizer que a livraria era um anexo da catedral de Notre Dame, situada do outro lado da ponte.
Hoje, a Shakespeare and Company é dirigida pela filha dele, Sylvia, cujo nome é homenagem à fundadora da casa original, Sylvia Beach. É uma visita obrigatória para quem vai a Paris e gosta de livros. Recentemente, Sylvia abriu um café ao lado com o mesmo nome da livraria.

Sylvia Beach e a rue de l’Odéon

Sílvia Beach e James Joyce, diante da antiga Shakespeare/foto: reprodução

É impossível dissociar a atual Shakespeare and Company de seu endereço ancestral, o número 12 de rue de l”Odeón, no 6º arrondissement de Paris, na “rive gauche”. Sylvia Beach, como ela mesma conta em seu livro “Shakespeare and Company – Uma livraria na Paris do entre-guerras” (Editora Casa da Palavra, 2004), aportou na Cidade-Luz no final dos anos 1910 e ali conheceu a livraria “La Maison des Amis des Livres” (a casa dos amigos dos livros), no 7, rue de l’Odéon, da jovem Adrienne Monnier, que viria a ser sua companheira pelo resto da vida.
Inicialmente, Sylvia pensou em abrir uma filial da “La Maison des amis…” em Nova Iorque, mas descobriu que era muito caro. Mais fácil e mais barato seria fundar em Paris uma livraria especializada em autores de língua inglesa, no que foi ajudada por Adrienne. O primeiro endereço foi uma transversal da l’Odéon, a rue Dupuytren, 8, inaugurado em 19 de novembro de 1919. Começou emprestando livros, depois partiu para a venda. Os escritores André Gide e André Maurois foram seus primeiros visitantes. No verão europeu de 1921, mudou para a rua de l’Odéon, 12, em frente à livraria de Monnier, onde ficou por quase 20 anos.
A rue de l”Odéon é uma via estreita, curta, que começa no Carrefour Odéon, próximo da avenida Saint Germain de Près, e termina na place de l’Odeon, onde está o famoso teatro do mesmo nome. Hoje, aquela quadra única é povoada de livrarias, cafés, bares, galerias de arte, antiquários, um consultório de oftalmologia, editora, butique de roupas, residências e uma loja especializada em caviar. Mas, tirando os carros estacionados, parece manter a mesma atmosfera de décadas passadas.
O número 12 ficou famoso pelos seus frequentadores, como Ernest Hemingway, James Joyce, Gertrude Stein. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Man Ray, Ford Madox Ford, Léon-Paul Fargue.
Em seu livro de crônicas “Paris é uma festa” (A Moveable Feast), Hemingway descreve o lugar: “Naquele tempo não havia dinheiro para comprar livros. Eu os obtinha no departamento de aluguel da Shakespeare and Company, que era ao mesmo tempo biblioteca e livraria de Sylvia Beach, na rue de l’Odéon nº 12. Nessa rua fria, varrida pelo vento, a Shakespeare and Company era um lugar acolhedor e alegre, com um grande fogão aceso no inverno, mesas e estantes de livros, novidades na vitrina e, nas paredes, fotografias de famosos escritores vivos e mortos”.
E fala de Sylvia: “O rosto de Sylvia era animado, de linhas marcantes, com olhos castanhos tão vivos como os de um pequeno animal e tão alegres como os de uma menina; seus cabelos, castanhos e ondulados, ela os usava penteados para trás de sua bela testa e cortados abaixo das orelhas, na altura da gola do blusão de veludo castanho que costumava usar. Tinha belas pernas, era amável, alegre e participante, e gostava de fazer brincadeiras e contar mexericos. Jamais conheci alguém que tenha sido mais gentil comigo”.
Sylvia foi a primeira editora de “Ulisses”, a famosa obra do irlandês James Joyce, que levou anos para concluí-la e vivia refazendo os textos. Considerado na época “pornográfico”, o livro era contrabandeado de diversas formas para os Estados Unidos, onde havia sido proibido.
A livraria foi sempre um sucesso até os nazistas ocuparem Paris. Num determinado dia de 1941, um oficial alemão viu na vitrina um exemplar de “Finnegans Wake”, de Joyce, e, diante da recusa de Sylvia em vendê-lo, ameaçou fechar a loja. No mesmo dia, Sylvia fechou a livraria, com a ajuda de amigos escondeu todo o estoque, removeu os móveis, a decoração e deixou o lugar totalmente vazio. Como não havia mais nada, os alemães levaram a proprietária, que passou seis meses num campo de concentração.
Em 1944, embora a Shakespeare não mais existisse, Hemingway foi até lá com um grupo de soldados, travou um tiroteio com o inimigo, e simbolicamente libertou a livraria e a rue de l’Odéon. Depois, como conta Sylvia no livro, “Hemingway e seus homens partiram em seus jipes ‘para libertar’, disse-nos, ‘a adega do Hotel Ritz’”. Sylvia morreu em 5 de outubro de 1962, em Paris, aos 75 anos.
Em julho passado, fui conhecer a livraria da rue Bûcherie. Para marcar, comprei um exemplar de “A Moviable Fest”, de Hemingway (11 euros, 55 reais, depois da conversão euro/dólar/real). Ganhei o tradicional carimbo com a efígie de Shakespeare, como um atestado de procedência. O livro, agora, faz companhia a uma edição de 1991 de “Paris é uma festa”, editada pela Civilização Brasileira. (JZ)