ORFANDADE DO RIO IGUAÇU

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É claro Pedro Bó que não existe Itaipu no rio Iguaçu, pois Itaipu represa águas no rio Paraná. Ouvi recentemente de membros do governo paranaense que se aplicará no maltratado rio Iguaçu o mesmo modelo do consagrado Programa Água Boa de Itaipu, desenvolvido na longeva administração Samek à frente da direção geral brasileira naquela Binacional.
Cantado em prosa e verso, o Programa Água Boa, ganhador de fama nacional e internacional, inclusive premiado pela Organização das Nações Unidas, precisa, no entanto, ser considerado à luz de um rosário de variáveis. A mais importante delas faz lembrar a estória do soldadinho que não disparou a salva de vinte e um tiros no dia da pátria. Chamado a se explicar perante o comandante, ele quis apresentar três justificativas, sendo a primeira delas a de que não há via munição. O comandante, por óbvio, dispensou-o das demais explicações.
O rio Iguaçu não irá merecer o mesmo tratamento do rio Paraná na área de Itaipu por uma única razão, não tem dinheiro. Em compensação sobram intenções, idéias mirabolantes, projetos natimortos e caçadores de culpado. É sempre assim, casa que falta pão, todo mundo briga e ninguém tem razão. O programa Água Boa decorre de um conjunto de felizes coincidências. Primeiro por ter assumido a direção de Itaipu o engenheiro agrônomo Jorge Samek, ambientalista pragmático e administrador talentoso.
Samek iniciou a carreira trabalhando com recursos naturais renováveis em microbacias e se especializou em juntar Joãozinho e Maria no tabuleiro político ambiental. Foi daí que sua origem e formação fizeram ver que o maior patrimônio, não só de Itaipu, mas de toda a região, seria dispor de água limpa e abundante no reservatório, nos rios, afluentes, fundos de vales e em todas as propriedades rurais da região.
Bingo. Já havia aprendido Samek sobre as três engenharias dominantes em qualquer processo, quais sejam, a técnica, a financeira e a política. Quanto à técnica o Paraná já dispunha da melhor tecnologia do Brasil, em termos de manejo de solo e água desde os anos oitenta. Na parte política, Samek nasceu com o raro dom de ser conciliador e executivo ao mesmo tempo, pois articula muito bem e produz melhor ainda, grandes resultados. Quanto à engenharia econômico-financeira, bem aí a estória é outra.
É importante esclarecer que o badalado Programa Água Boa trata de assegurar o manejo adequado da franja de proteção do reservatório de Itaipu em sua margem esquerda, ou seja, do lado brasileiro, onde não falta dinheiro de royalties aos municípios. Na margem direita, lado paraguaio, já se tentou todo tipo de “água boa”, sem que se tenha logrado sucesso devido, fundamentalmente, ao fato de que lá os municípios mal sentem o cheiro dos royalties que vão direto para o tesouro do Governo Central.
E o maltratado rio Iguaçu que possibilita a geração e distribuição de tanta energia, não mereceria por parte de quem mais explora sua riqueza, o mesmo tratamento dispensado por Itaipu (lado brasileiro) aos mais de 1.500 km de margem do seu reservatório? Como na estória da salva de tiros no dia da Pátria, sem alocação efetiva de recursos, o rio Iguaçu, dispensa todas as desculpas passadas, presentes e futuras.

 

Joaquim Severino – Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A e Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná – 1973/2010, tem escrito mais de mil artigos nesta coluna desde 1992.