Tu me ensinas fazer renda? Essa pergunta, que parecia restrita à música folclórica, volta a fazer sentido no Ceará. É que as rendas tiveram momentos felizes nos desfiles de vinte anos do Dragão Fashion Brasil Festival, recém-realizado em Fortaleza, e um dos protagonistas é o artista Alexandre Heberte, o rendeiro de Juazeiro do Norte.

A convite do Senac-CE apresentou-se ao tear de pente liço, mostrando suas tramas experimentais, recriada com as técnicas tradicionais: borda relevos nas rendas e tece usando fitas VHS, palha de seda, nylon…

“É um híbrido de crochê, tricô, renda e filé. Renda que não é renda, tricô que não é tricô, filé que não é filé. Estão chamando de a nova renda nordestina”, diz o cearense de 46 anos que, por ironia do destino, foi se tornar artesão dos fios em São Paulo. A mãe era da costura – o menino cresceu rodeado de dez máquinas pela casa sertaneja. O tear mesmo lhe foi dado a conhecer (e se apaixonar por ele) já adulto, na casa do mestre têxtil José Donizete. E recebeu logo um sim ao pedir: Tu me ensinas a fazer renda?

Ao ficar desempregado no Sul-maravilha, a tecelagem manual lhe rendeu sobrevivência com seus xales, bolsas, tapetes. Chamou atenção de artistas e acabou tecendo mais de cem metros para o estilista João Pimenta, cuja coleção foi apresentada na SPFW em 2012. Depois vieram exposições, consultorias, projeto com a Melissa e participação no Inspiramais, principal salão de design da América Latina. Seu coordenador, Walter Rodrigues, diretor do Núcleo de Design da Assintecal, assim dele me diz:

“Alexandre  Heberte é um verdadeiro artista. Descobrimos seu trabalho em uma das primeiras pesquisas do Inspiramais, nos estudos de mistura de fios. Agora mais recentemente, em novembro, ele fez parte do projeto de sustentabilidade do Instituto Focus Têxtil, o Design Vision, do qual sou curador. O Alexandre desenvolve sua arte não só para unir pessoas, como faz rendas belas, tanto para usar no corpo como colocar na parede. E, como pessoa, ele é absolutamente encantador”.

Depois que deixou o Cariri, Alexandre fincou pé mesmo em São Paulo, onde graduou-se em Artes Visuais, defendendo o TCC intitulado Ofício de Tecelão: artista docente da tecelagem manual.”Sou tecelão há doze anos. Bordo ao mesmo tempo: tear é também meu bastidor”,

Nesse retorno à Fortaleza, além da performance com o tear no DFB Festival, também a convite do Senac-CE, Alexandre contribuiu com a coleção Cariri Visceral. As peças nasceram após um semestre de pesquisas com alunos de Juazeiro do Norte. Na passarela, destaque ao encontro da cultura da Região do Cariri e a percepção de que as rendas se reinventam mesmo, como se percebe, por exemplo, no incrível encontro das suaves filigranas com o couro que notabiliza o mestre Espedito Seleiro.