O VINHO DA PRIMAVERA. O VERDADEIRO VINHO DOCE E SUA HISTÓRIA

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Nós brasileiro, em especial os do centro-sul, que estamos mais habituados a degustar vinhos, ainda estamos longe, com exceção de poucos, de conhecer o VINHO DOCE. É completamente diferente daquele vinho barato, que chamam de suave, que é oferecido à mesa de muitas cantinas e restaurantes que conhecemos por aí. Para o europeu e o mundo bacante, este é um assunto sério, devido ao trabalho, a dedicação, história e qualidade dos mesmos.
Ao iniciarmos a estação mais linda do ano a Primavera, a ESTAÇÃO DAS FLORES, quando deixamos o General Inverno para trás, nada como saudá-la com um VINHO que é feito do amadurecimento das uvas nas parreiras produzindo o chamado BRILHO DO SOL, devido o amarelo de sua cor, O VINHO DE COLHEITA TARDIA, O VINHO DE SOBREMESA, acompanhado dos maravilhosos queijos azuis como o Gorgonzola, Roquefort ou Stilton, ou com os maravilhosos doces de sobremesa. Como vocês vêem tudo no VINHO TEM UM RITUAL, isto que o torna mais maravilhoso.
GOLES DE HISTÓRIA.
Como sempre enfatizamos em nossa Coluna VINUM VITA EST, A HISTÓRIA VISTA PELO VINHO, agora um livro, tudo tem história, conforme discorremos em nossas matérias e os VINHOS DOCES não fogem à regra, apesar de não estarem nas nossas prioridades quando pensamos em vinho, não é? Mas devo dizer que costuma ser um simpático presente. Uma garrafa de vinho de sobremesa, normalmente de 350 ml não é cara, é elegante, agrada, marca além de você estar entronizando muitas vezes o presenteado num novo mundo dos vinhos. Antigamente a preferência pelos vinhos doces decorria da escassez e do alto preço do açúcar, situação que começou a mudar quando os canaviais da Ilha da Madeira, América e Ásia passaram a suprir o mercado com abundância e passou-se a usá-lo para adoçar o café e o chá. Nos fins do século XVIII, o vinho de consumo habitual começou a deixar de ser doce para se tornar seco, mas até recentemente, o vinho doce ainda imperava no Brasil. Conforme nos descreve o Mestre enófilo curitibano Luíz Groff em seu livro O ESPÍRITO DO VINHO, que recomendo, em SAUTERNES fabrica-se o vinho doce dos quais o CHATEAU d’YQUEM é o mais famoso e mais caro. O sol e a umidade da região são propícios à criação do BOTRYTIS CINEREA, bolor benéfico que ataca e desidrata as uvas, até atingirem 20% de açúcar. Inicialmente o Chateau só fazia vinhos secos e em 1787, contava o Conde Lur entre seus clientes Thomas Jefferson. Em 1847 o Conde Lur-Saluns foi passear na Rússia e retornou atrasado para a colheita, encontrando seus parreirais carregados de uvas podres. Resolveu fazer o vinho assim mesmo e quando abriu a garrafa, doze anos depois, descobriu aquele “VINHO DE OURO”.
O Gran-Duque Constantine da Rússia, primeiro felizardo a beber um CHATEAU d’YQUEM, logo arrematou quatro tonéis por 20 mil francos de ouro. Desde então seus preços são considerados altos, talvez justificadamente, se considerarmos que a propriedade tem apenas 80 ha plantados e cada parreira dá APENAS UM COPO POR ANO. É realmente uma história em que a coincidência ajudou o homem em sua caminhada pelo mundo do vinho.
*VOCE SABIA QUE EXISTE UM VINHO DOCE ESPECIAL PARA SOBREMESA?
Há diversos tipos e histórias sobre este vinho, que nasceu justiça seja feita, na Hungria, com os TOKAJ. Assunto um pouco longo que envolve invasão turca, (como sempre a História), medidas de baldes (os Putnyos) etc. Assunto para outra matéria. “Os vinhos doces mais nobres são justamente os TOKAJ e SAUTERNES (Bordeaux-França), que levam os nomes de suas regiões de vinhedos que sofreram o raro ataque de BOTRYTIS CINEREA, chamada de ‘PODRIDÃO NOBRE” ou “POURRITURE NOBLE”, nome de um fungo que não existe em toda a parte e que, dependendo da condição climática e do atraso na colheita, aparece e se instala nas uvas, sugando seu líquido. A uva fica com que “PASSA” e, quando prensada para produzir vinho, a qualidade relativa de açúcar é maior do que num vinho normal colhido no auge da maturação. Vejam vocês, que trabalho maravilhoso da natureza com a ajuda do homem para produzir uma obra prima “O VINHO DOCE”.Hoje já se consegue “induzir” a BOTRYTIS CINEREA. Os “BOTRYTISADOS” são considerados mais nobres e, portanto, mais caros. É só ler bem o rótulo para observar a diferença. Saiba que o traço típico desses vinhos é o aroma de casca de laranja.
*OS VINHOS DOCES MAIS EM CONTA.
Os vinhos doces mais comuns e mais conta – e não menos agradáveis, aliás, com uma qualidade ótima, chilenos, nacionais o da Aurora inclusive diga-se – são os chamados “LATE HARVEST”, ou seja, COLHEITA TARDIA. Por ficarem mais tempo nas videiras, eles começam a murchar, produzindo também um declínio da quantidade líquido na uva. Estes são mais comuns e se encontram em toda a parte.
Entre estes extremos existem outras preciosidades como o PASSITO, típico da Itália, que consiste em colher as uvas no auge da maturidade e deixá-las “passificando” em estrados de madeira em galpões ventilados. Quando estão no ponto de passa, produz-se o vinho. São maravilhosos – há os tintos e os brancos, ambos deliciosos.
O VIN SANTO da região de Toscana também segue os mesmos métodos de passificar cachos de uvas e vinificá-las após esse processo. Leva esse nome por ter sido criado por monges que davam o vinho aos doentes como um revigorante, líquido que muitas vezes promoveu efeitos extraordinários. Aqueles que tiveram a felicidade de viajar pela Toscana, conhecendo suas cantinas e vinícolas lembram que ao final de uma refeição toscana é de tradição servir uma taça acompanhada dos biscoitos “CANTUCCI”, que os italianos gostam de mergulhar na taça antes de saboreá-los.
E assim segue-se uma série de vinhos do mesmo tipo que se tornaram famosos como o VIN DE PAILLE da região do Jurá, França, o VIN DOUX NATURELLE, o grande MOSCATO D”ASTI da região de ASTI, o MOSCATEL DE SETUBAL, típico desta região portuguesa, o ICE WEIN, os vinhos do gelo, próprios da Alemanha e Canadá, que têm suas uvas colhidas durante a neve, onde as uvas congelam e, ao serem prensadas congeladas, intensificam o açúcar da fruta. Quando mais baixa a temperatura da uva, maior o teor de álcool. São vinhos raros, caros e finos. Há ainda os também fortificados Vinhos do Porto, os Madeira (Boal e Malvásia) e ainda o espanhol JEREZ PX (da uva Pedro Ximenes). Maiores informações poderão encontrar em nosso livro recém lançado VINUM VITA EST – A HISTÓRIA VISTA PELO VINHO.
Enfim é um mundo à parte no mundo dos vinhos, que fazem a alegria dos degustadores deste néctar dos deuses, como muito bem diz o enófilo Sergio de Paula Santos, em sua obra VINHO, “Essas ocorrências constituem as ironias e curiosidades que fazem da procura e “caça” aos vinhos um prazer quase tão grande quanto à degustação e, às vezes o melhor da festa pode ser esperar por ela”. Feliz Primavera em sua vida.
AVOE. BRADO DE EVOCAÇÃO Á BACO POR SEUS SÚDITOS.

Osvaldo Nascimento Júniors.:
Advogado, Enófilo, Sommelier, Palestrante e Colunista de Vinhos, autor do livro VINUM VITA EST – A HISTÓRIA VISTA PELO VINHO pela Editora Prismas de Curitiba em sucesso de vendas em mais de cem cursos e palestras ministradas em mais de dez anos num convite ao leitor(a) para um passeio cultural e didático pelo apaixonante universo da Enologia e da história Adquira o seu pelo fone (41)99688 9252 ou osvaldopinheiro@gmail.com Valor do investimento R$ 65,00 –