FEIRA TROPEIRA EM SOROCABA, DESENHO DE GETÚLIO DELPHINO 1º Encontro Nacional do Tropeirismo (Enat), realizado no final de maio em Urupema já teve dois desdobramentos: a Carta Tropeira daquela cidade catarinense, assinada pela Câmara Municipal no início de julho e que é “marco cultural para auxiliar o processo de resgate, preservação e valorização da história e demais atividades inerentes ao ciclo tropeiro do município”, como destaca o coordenador do evento, o pesquisador Carlos Roberto Solera, e um trabalho de pré-levantamento das trilhas equestres locais (15 numa primeira etapa), que dará embasamento a um projeto turístico-cultural local e posteriormente regional.
“Continuamos com a tropa em marcha”, diz Solera, que é o presidente do Nata (Núcleo de Amigos da Terra e Água), organização não-governamental que trabalha em parceria com a Universidade de Girona – UdG, da Espanha, cuja representante no projeto é a professora Sílvia Grau, master em Turismo Cultural daquela instituição. A meta é qualificar o Tropeirismo como Patrimônio Imaterial brasileiro, sensibilizando o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e, numa segunda etapa, da Humanidade, através da Unesco, órgão da ONU para a educação, ciência e cultura.
LAPA, MONUMENTO AO TROPEIROA exemplo de Urupema, e graças ao empenho de Solera, Curitiba já tem a sua Carta Tropeira, firmada em abril de 2014, em evento na Câmara de Vereadores, que reconhece o Tropeirismo como fenômeno social, cultural, ambiental e econômico para o desenvolvimento, mesmo princípio agora arguido na Carta de Urupema, e define o 19 de setembro como Dia da Memória Tropeira.
Carlos Solera lembra que o Tropeirismo no Brasil teve início com o desenvolvimento da mineração nos séculos 17 e 18; a descoberta de ouro e de diamantes provocou intenso movimento migratório para a região das “minas gerais”. Os tropeiros foram importantes para abastecer de alimentos toda aquela gente, no comércio e transporte de mercadorias, na demarcação de estradas e rotas, principalmente nas regiões sul e sudeste e na definição de povoados, vilas e cidades. O Tropeirismo acompanhou os ciclos econômicos do país, como o de mineração, da cana de açúcar, café, cacau, erva mate e madeira.
CAVALGADA EM SÃO LUIS DO PURUNÓForam os muares as molas mestras da implantação e colonização do Brasil interior por mais de 200 anos”, conta Solera, até o surgimento das rodovias e ferrovias. “Os tropeiros tiveram papel preponderante na introdução de usos e costumes, músicas, danças, gastronomia, indumentárias, medicina campeira e também no comportamento religioso e social. “É preciso estudar, resgatar, informar e transmitir aos nossos jovens esta página de glória da história brasileira”, diz o pesquisador.
O projeto Tropeiro Brasil foi lançado pelo Nata e pela UdG na vila tropeira de São Luís do Purunã, município de Balsa Nova (PR) há 15 anos. Era para ali que convergia o Caminho dos Conventos, primeira estrada de tropas do Brasil colonial. A rota partia da região entre Laguna e a atual cidade de Araranguá (SC), junto ao morro dos Conventos, hipoteticamente o limite sul oficial do território brasileiro-português estabelecido pelo Tratado de Tordesilhas. Atingia a região gaúcha dos Campos de Cima da Serra, adentrava a serra catarinense, cruzava o chão onde estão hoje Lages e Curitibanos, descia a serra do Espigão e entrava em território paranaense após atravessar o rio Una (atual rio Negro), passava pelo futuro território da Vila da Lapa e terminava na fazenda chamada Os Carlos, no distrito da atual São Luiz do Purunã. A conclusão da obras foi comuniada à Câmara de Curitiba em 19 de setembro de 1730, pelo capitão Francisco Sousa e Farias.