Há seis anos, uma tragédia sem precedentes na cidade de Daca, Bangladesh abreviou a vida de 1.138 pessoas e deixou mais de 2.500 feridas. Terremoto? Furacões? Monções de julho?  Não, desastre humano provocado pelo desabamento de um prédio de oito pisos, de nome Rana Plaza, onde funcionavam um centro comercial e cinco manufaturas têxteis entre os mais de quatro mil sweat shops da capital bengali.

Dependente quase exclusivamente da exportação de artigos de vestuário barato(80% de sua receita) para gigantes do varejo mundial, o ocorrido em 24 de abril de 2013 atraiu a atenção para o minúsculo país que ostenta um dos IDHs mais baixos do mundo, revelando também o lado mais sombrio do comércio injusto, para além dos salários miseráveis, e que motivou esse verdadeiro homicídio em massa:  o desprezo pelo valor da vida humana.

Ante a dimensão do evento, e temendo danos à imagem que poderiam repercutir em substanciais quedas nas vendas, grandes players do varejo, aqueles que mais se beneficiam da mão de obra desqualificada e barata e das péssimas condições de trabalho no país, apressaram-se em firmar termos de acordo vinculantes com o  governo local para fiscalizar e melhorar as estruturas, oferecer condições de segurança para os trabalhadores locais, e engajar-se em programas de monitoramento e fiscalização das unidades fabris no que concerne à prevenção de incêndios e desabamentos. Durante esse mutirão transnacional, foram fiscalizados, de acordo com dados locais, mais de 1600 sweat shops.

Das vinte e nove marcas identificadas como tendo produtos fabricados no Rana Plaza, algumas contribuíram para um fundo de indenização voluntário, apoiado pela OIT, malgrado muitas famílias não tenham ainda sido indenizadas. Após a tragédia, surgiram movimentos como o Fashion Revolution, cuja pauta era maior transparência das cadeias produtivas, respeito aos direitos humanos, e dignidade aos trabalhadores da indústria da moda mundial. Porém, o que de fato, mudou desde então?

Segundo a ativista bengali Kalpona Akter, umas das maiores vozes em defesa dos trabalhadores de Bangladesh, nos imediatos anos após o acidente, a questão da segurança experimentou certa melhora. Não obstante, em relação ao respeito aos direitos sociais e trabalhistas, como a pauta por um salário mínimo digno e punição à violência de gênero contra as trabalhadoras mulheres que compõem 85% da força laboral do setor, houve pouco ou nenhum avanço. Não há efetiva repressão ao assédio no ambiente de trabalho, e aqueles que se atrevem a mobilizar os trabalhadores em busca de melhores salários são duramente reprimidos, torturados e assassinados.

Passados mais de seis anos do acidente e sem a ocorrência de outra grande tragédia, a clara impressão é de que, uma vez fora do noticiário mundial, a situação dos trabalhadores de Bangladesh e de outros países sedes da produção barata e precária não mais representa um incômodo à consciência de muitos consumidores para os quais os preços convidativos das roupas trendy  continuam a representar o atrativo supremo.

Segundo a revista eletrônica Business of Fashion, no ano de 2018, somente as varejistas Zara e H&M produziram em Bangladesh o equivalente a U$ 30 bilhões de dólares que deixaram o país rumo aos maiores mercados consumidores do mundo.  De acordo com a Organização Mundial do Comércio, entre 2010 e 2017, a participação de Bangladesh na exportação de roupas foi de  4,2% para 6,5% um aumento de 50%. Por outro lado, as margens de lucro das fábricas locais caíram em 13%, de acordo com um relatório de 2018 publicado pelo Centro para os Direitos Globais dos Trabalhadores da Universidade da Pensilvânia.

É óbvio que a pressão das grandes varejistas mundiais por redução de preços sacrifica sempre a ponta mais vulnerável da cadeia, os trabalhadores, submetidos a desumanas jornadas de trabalho superiores a 100 horas semanais e salários inferiores a U$ 68,00 mensais, aproximadamente R$ 300,00. Some-se a isso a pressão para o fim dos pactos internacionais pela segurança outrora firmados.

Será necessário uma nova catástrofe?

Ana Fábia R. de O. Ferraz Martins
Advogada, especialista em Direito e Negócios Internacionais.