No último dia 25 de maio, por conta de minha dupla nacionalidade franco-brasileira, tive a oportunidade de trabalhar como voluntária nas eleições para o Parlamento Europeu. Pude conhecer um processo eleitoral democrático e complexo para a eleição dos 751 deputados. Os representantes eram escolhidos por meio listas de votação, cujo número de candidatos em cada lista corresponde ao de cadeiras a que o país membro tem direito.

Chamou minha atenção nesse escrutínio a participação absolutamente igualitária de homens e mulheres. Nas listas de candidatos para representantes franceses ao parlamento, se alternam invariavelmente nomes masculinos e femininos, à proporção de 50%, consagrando um modelo inclusivo de participação feminina no processo eleitoral. Um exemplo para muitas nações, inclusive o Brasil onde o percentual de mulheres ocupando cargos públicos patina em algo próximo de 10%.

E, o que isso tem a ver com moda e com sustentabilidade? Bem, vamos lá.

A ONU lançou em 2015 uma agenda com 17 (dezessete) objetivos a serem atingidos até 2030: os Objetivos Globais para o Desenvolvimento Sustentável, traçando metas para erradicação/diminuição da pobreza, promoção da prosperidade, igualdade e bem-estar, proteção do meio ambiente e enfrentamento das mudanças climáticas. Segundo essa cartilha, o desenvolvimento sustentável só será alcançado a partir de três elementos cruciais: desenvolvimento econômico, inclusão social e proteção ao meio ambiente, objetivos intimamente ligados entre si, e fundamentais para o bem-estar dos indivíduos e sociedades.

O objetivo número 5(cinco) contempla a igualdade de gênero, segundo o qual não deve a condição de homem ou mulher servir como barreira para o exercício pleno de direitos de qualquer natureza. Na maioria das sociedades há diferenças e desigualdades entre mulheres e homens, nas responsabilidades que lhes são atribuídas, nas atividades a serem realizadas, acesso e controle sobre recursos, e oportunidades nas tomadas de decisão.

A Constituição Federal da República Brasileira no art. 5º dispõe que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. Igualdade de oportunidades entre homens e mulheres inclui-se nessa perspectiva de futuro sustentável elaborada pela ONU e referendada por 193 países, entre os quais o Brasil. Ser sustentável, pois, vai além de recusar o canudo plástico ou levar a sacolinha retornável às compras.

Na indústria da moda, malgrado a força de trabalho seja composta esmagadoramente por mulheres – mais de 70% (setenta por cento) da mão-de-obra é feminina – os cargos mais altos de gestão são ocupados por homens, produzindo o chamado gender gap: diferença entre homens e mulheres refletida nos aspectos econômico, político, social, cultural e intelectual.

Análise conduzida pela revista digital Business of Fashion (www.businessoffashion.com) mostra que nesse universo, gestos simbólicos são mais frequentes do que medidas concretas tendentes a de fato, eliminar as desigualdades, onde homens ocupam de maneira desproporcional os postos mais altos em todas áreas do negócio, a despeito de as mulheres serem os rostos da moda, suas maiores produtoras e consumidoras, dispendendo em média, três vezes mais do que os homens em roupas, acessórios e produtos de beleza.

Segundo o jornalista Marc Bain, do periódico eletrônico de moda Quartzy (https://qz.com/quartzy/1285516/a-fashion-industry-study-finds-that-while-women-prop-it-up-men-run-it/), em 2016 nos Estados Unidos, 85% dos alunos do FIT – Fashion Institute of Technology eram mulheres.  Ainda, os postos de trabalho em cargos iniciais e intermediários na indústria da moda são preenchidos majoritariamente por mulheres. Porém, à medida que se avança para o topo da carreira, as mulheres simplesmente desaparecem.

No Brasil não há um estudo específico para a indústria da moda, mas o IBGE em pesquisa de 2018, constatou que, mesmo em atividades profissionais onde são maioria, as mulheres recebem em média, 70% dos salários pagos aos homens.

Nos backstages dos desfiles, a figura masculina do fashion designer é maioria, levando a concluir que há mais homens criando roupas para mulheres do que as próprias mulheres. No levantamento de 2016 da Business of Fashion, abrangendo as quatro maiores Fashion Weeks: NY, Milão, Paris e Londres, as estilistas mulheres tiveram participação de 40.2% na média, sendo maior a participação das mulheres em cidades inclinadas a divulgar marcas contemporâneas, como Nova York e Londres (47,3% e 40.5%).  Nos Fashion Weeks mais tradicionais, como França e Itália, a participação foi de 37% e 31% respectivamente. A democrática e inclusiva França amarga um penúltimo lugar….

Muitas são as causas que podem levar a essa desigualdade, entre elas o preconceito dos homens em postos chave da carreira que relutam em promover mulheres, a questão cultural onde as mulheres são ensinadas a não assumir riscos, ter menos autonomia e menor visibilidade. Sem contar a possibilidade da maternidade que continua, infelizmente, a ser vista como impedimento de acesso a cargos como a direção criativa de uma grande marca.

Muito embora a indústria ainda seja dominada por homens, a tendência tem sido a da consolidação das mulheres como designers incríveis, originais, cheias de talento, cultura, e coragem para inovar e correr riscos criativos, como disse Marc Jacobs. O talento feminino sempre existiu, mas está sendo finalmente reconhecido. Enxergar a igualdade de gênero como um objetivo global a ser alcançado já não era sem tempo.

Ana Fábia R. de Oliveira Ferraz Martins

Advogada, especialista em Direito Internacional e especializada em Direito da Moda.

Contato: afribas@uol.com.br