O protagonismo da moda

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Definir a moda, sua origem e propósito não é tarefa fácil. Incontáveis as teorias para conceituá-la e enquadrá-la como fenômeno social e cultural que reflete o zeitgeist, e sempre se encontrando inserida em mutante contexto político e histórico.

De maneira sucinta, mas abrangente, se diz que a moda é a novidade, a originalidade e até mesmo uma provocação contra o status quo. Ao romper com tradições, se define como um precioso indicador da mudança e evolução social (https://www.portaildelamode.com/histoire-mode/).

Em seus primórdios, o único papel da vestimenta era funcional. Seja para esconder o corpo por pudor, ou se proteger do frio, chuva e sol, o homem passou a utilizar a pele dos animais que caçava para essa finalidade.

Logo a vestimenta meramente protetiva adquire outros propósitos. Melhora sua qualidade, recebe tingimento, agrega plumas e acessórios feitos em osso, a roupa passa a ser indicativo da proveniência geográfica, etnia, posição social na tribo, gênero, idade. São as primeiras manifestações do que hoje se define como moda.

Na França, eterna referência do luxo, a partir do século XIV, a moda se torna um capricho aristocrático. A forma de se vestir, as pedrarias, bordados e adornos distinguiam a corte dos camponeses. Até mesmo o tom claríssimo da pele era indício de pertencimento à nobreza, ao contrário dos trabalhadores agrícolas que diariamente enfrentavam duras jornadas no campo, expostos ao sol inclemente. Vão se consolidando seus aspectos sociais, econômicos e políticos.

Louis XIV, o rei Sol, com sua personalidade ultra narcísica, teria sido o primeiro “influencer”, ao perceber que a supremacia econômica e política passava pelo culto à sofisticação na aparência.  “O luxo, – dizia ele – é necessário são só para a saúde econômica da França, mas pra a sobrevivência da própria monarquia”, justificando sua megalomania vestimental.

Importante vetor de mudanças, assim foi nos anos subsequentes. Surgem nos séculos XVIII e XIX os almanaques de moda, percussores das atuais revistas. No século XX, Gabrielle Chanel faz de suas criações um contraponto às convenções e ao desconforto a que estavam obrigadas as mulheres, libertando-as das várias camadas de saias e dos apertados corsets, criando a elegância descomplicada. Um protesto contra a opressão feminina. Por sua vez, sua rival italiana, Elsa Schiaparelli lançava as sementes das atuais colabs de moda e arte, na frutífera parceria com Salvador Dali, criando o icônico “vestido lagosta”.

Monsieur Dior com seu new look de cintura de vespa, permitiu às mulheres tão sacrificadas do pós-guerra a possibilidade de sonhar com dias melhores, ao apresentar glamour e sofisticação em seus modelos.

Elvis Presley, seus penteados barrocos e sua biker jacket traduziram o desejo de mudança dos jovens das décadas de 50-60 ávidos por construir uma identidade própria, comunicando seu inconformismo pela maneira de vestir.

A mini saia, inventada por André Courrèges e popularizada por Mary Quant na Londres efervescente dos anos 60, o biquini no Brasil, as batas e vestidos tye-dye faça-você-mesmo do movimento hippie, tão engajado contra guerra do Vietnã, o movimento punk do dos 70,  os desfiles da ativista e transgressora Vivienne Westwood  e tantos outros exemplos  do poder da moda como linguagem, forma de protesto e de mudanças sociais, culturais e políticas.

Porém, em tempos de excessiva midiatização, banalização de valores, a moda parece ter deixado de lado o protagonismo positivo, apostando em um modelo vazio de consumismo desenfreado que enriquece poucos e sacrifica milhões.

Em um cenário sombrio de mudanças climáticas, catástrofes ambientais e humanas, a moda e seu poder como indústria de quase U$ 2,5 trilhões, deverá repensar suas práticas, assumir responsabilidades e liderar as mudanças que o planeta necessita. Ainda dá tempo.

Ana Fábia R. de O. Ferraz Martins – Advogada, especialista em Direito e Negócios Internacionais.