Os dois assuntos do título são mundialmente conhecidos. O perfume, após a eterna pinup, Marilyn Monroe haver declarado que não usava nada além de algumas gotas de Chanel nº 5 para dormir.  A floresta, há algumas semanas aparece entre os trending topics, mas também é atualmente o único local onde ainda é possível extrair o precioso linalol natural, óleo essencial da árvore do pau-rosa (bois de rose), espécie nativa da Floresta Amazônica, um dos principais componentes da fragrância, cada vez mais raro, e que de tão predatoriamente explorado, hoje só é encontrado na Amazônia Brasileira, especificamente no estado do Amazonas. Desde 1992 a espécie está catalogada pelo IBAMA como em vias de extinção.

A célebre e sedutora frase de Marilyn Monroe perturbou os sentidos e fez com que a fragrância se eternizasse, sendo até hoje a mais vendida da história da perfumaria. Mademoiselle Chanel, a primeira designer a dar seu nome a um perfume, lançou-o em 1921, pela criação de Ernest Beaux, considerado o maior perfumista de todos os tempos. Uma mistura de óleos exóticos como de ylang ylang, jasmim, néroli, sândalo, pau-rosa e outros, nascendo um perfume sensual, marcante, inesquecível e contemporâneo, apresentado em seu frasco art-déco atemporal, cuja tampa foi inspirada na geometria da Place Vendôme.

Essa exclusividade e luxo, porém, vêm com um preço caríssimo em desfavor da floresta e da sustentabilidade. O pau-rosa é uma espécie selvagem, atingindo 30 (trinta) metros de altura, que cresce e se desenvolve nas profundezas da mata, de maneira espaçada, com uma distância média de 6(seis) hectares entre uma árvore e outra. A derrubada é necessária para a obtenção da essência de odor marcante empregada na fabricação do perfume. Para uma tonelada de óleo, é necessário abater entre 25 a 50 árvores. Em tempo, essa espécie demora de 30 a 35 anos para chegar em seu ponto de corte. Inconciliáveis, pois, a exploração do óleo do perfume francês mais vendido de todos os tempos, com a floresta em pé…

Os “mateiros”, caboclos contratados para encontrar as árvores nativas nos rincões da mata, embrenham-se solitariamente em seu interior, andando por várias semanas, expondo-se a vários perigos. Quando encontram exemplares da preciosa árvore, usam um facão para marcar as iniciais do produtor para quem trabalham. No verão, outra equipe de mateiros entra para cortar as árvores marcadas. Depois que são derrubadas as toras são cortadas com serrote e carregadas nas costas, amarradas a uma mochila de cipó, até a beira do rio.  De lá serão transportadas de barco à usina de extração do óleo. Declarada espécie em extinção, seu corte apenas é permitido com a apresentação de plano de manejo sustentável, na maior das vezes não concretizado, pois, a espécie é rara, as mudas são caras, e, a fiscalização, insuficiente apesar do rigor da legislação ambiental. Resultado: exploração ilegal.

Pelo trabalho de adentrar as profundezas da floresta por dias e noites, os mateiros recebem em média, R$10,00 (dez reais) por dia. O processo de exploração do pau-rosa, que começa com a marcação da árvore e termina com a madeira dentro da usina, leva em média um ano. E tem um alto custo que os donos das usinas, ribeirinhos habitantes da região, não têm condições de assumir. Este pequeno produtor comercializa seu produto para o intermediário por US$ 20,00 (vinte dólares) o litro. Pouquíssimos conseguem exportar direto para as indústrias.

Por isso, a produção é vendida antecipadamente aos atravessadores, que a revendem para a Europa, Ásia e Estados Unidos. Cerca de 90% da produção é exportada. O extrato do óleo é vendido em tambores de 200 litros para as casas perfumistas ao preço de US$ 300 o litro.

A busca pelo cobiçado produto levou à formação de uma cadeia produtiva injusta e perniciosa, propícia à exploração humana do mais vulnerável, à espoliação do meio ambiente, culminando com a quase extinção da espécie nativa, e no êxodo forçado de muitas famílias que viviam desse extrativismo. A forte demanda e a escassez da matéria-prima tornou forçosa a busca por soluções sustentáveis, formas de replantio, aproveitamento das folhas, e técnicas de desbaste do tronco, preservando a árvore em pé. Soluções genuinamente brasileiras, para conservar um patrimônio nacional.

Em tempos de ânimos exacerbados e frequentes altercações motivadas mais pela irracionalidade do que em fatos comprovados, reafirma-se a absoluta urgência de preservar a floresta brasileira e sua inestimável biodiversidade, explorando-o de maneira ética, humana e sustentável.

Ana Fábia Ribas de Oliveira Ferraz Martins.