Etimologicamente, a palavra luxo vem latim luxus: “excesso, extravagância, magnificência. Provavelmente deriva de luctus: “deslocado” (vide “luxação”), relacionado ao verbo luctari:, “lutar, esticar, tensionar”, pelo sentido de “fora de lugar ”
Não ha sociedade que rejeite o luxo. Desde o neolítico, o homem se dedicava a fazer festas e eventos grandiosos, adornando-se como forma de demonstração de poder, sem se preocupar com o desperdício ou com a escassez da caça.
Mais do que nunca na sociedade contemporânea, baseada no insaciável consumo de bens, o luxo ainda está associado à suntuosidade, à pompa, à extravagância, magnificência, ao supérfluo, à frivolidade, à aparência, ao poder material. Adquirir bens inacessíveis à maioria das pessoas, ostentar e exibir suas conquistas em redes sociais se tornou verdadeira febre, no sentido real da palavra. A perseguição obsessiva pelo numero de likes nas mídias sociais se tornou algo tão doentio que a conhecida rede social Instagram passou a limitar a visualização dessas ditas “curtidas”, tamanha a necessidade das pessoas em serem “amadas”, levando ate a quadros de depressão psíquica por aqueles que não se sentem apreciados.
Felizmente, este conceito vem se modificando de maneira lenta, a uma, por uma saturação do modelo de consumo, que enriquece a poucos e empobrece a milhões, a duas, porque passou a perceber a urgência ambiental de que as coisas mudem, pois, seriam necessários 8 (oito) planetas terra nos próximos quinze, vinte anos para manter os níveis atuais de produção de lixo, CO2, efeito estufa, e destruição. Atualmente, para que o ar que respiramos retorne ao nível do começo do século XX, já precisaremos plantar 4 (quatro) florestas amazônicas!
Atualmente e fácil observas que, as pessoas pertencentes a classes sociais mais altas e alguns artistas e celebridades conscientes do novo momento, portam discretamente seus jeans surrados e Converses nos pés, enquanto, os que tentam parecer ricos, ostentam enormes logos das marcas de luxo em bolsas, camisetas, sapatos, ou, na impossibilidade de adquirir originais, comprar as famigeradas “replicas”.
O luxo hoje, é ter em mente que, para que poucos possam comprar tanto, muitos recursos humanos e naturais estão sendo sacrificados. O mercado da moda vem mudando em função dessa nova realidade. O luxo hoje, passa pela conscientização do consumidor, pela busca da informação, pela colaboratividade e generosidade; cada vez que decidimos adquirir algo, devemos buscar saber a procedência da peca, se a cadeia produtiva e limpa, se o fabricante cuidou dos recursos naturais utilizados, se tratou a água utilizada e zelou pelos recursos humanos que empregou, se a mão-de-obra local foi devidamente valorizada, se os saberes ancestrais daquela comunidade foram preservados, e assim por diante. A exploração canibalesca dos recursos humanos e naturais não pode ter mais lugar, a uma, pelo marketing negativo que representa, a duas, a bem da nossa própria sobrevivência.
Não a toa, e já que toda mudança, em especial na moda, começa do alto os grandes nomes da moda já estão trabalhando este novo paradigma. O mogul da indústria do luxo, François-Henri Pinault, dono do poderoso grupo Kering, ja cunhou a expressão: capitalismo generoso, para designar esse novo momento por que passa a indústria do luxo, para a qual a única saída será reinventar-se, colaborando na construção do novo luxo colaborativo e sustentável.

* Ana Fabia R. de Oliveira F. Martins é advogada, especialista em Direito e Negócios Internacionais e especializada em Direito da Moda.