O lado sombrio do poderoso mercado de cosméticos on line.

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Em maio de 2020 abrirá as portas em Nova Iorque o Makeup Museum, um espaço que contará os dez mil anos de história da maquiagem, desde os míticos kohls, aplicados aos olhos pelos egípcios e outros povos da antiguidade para embelezamento e proteção contra o “olho do maligno”, passando pelas gueixas e teatros kabuki japoneses, até o drag makeup e sua influência na cultura popular contemporânea.

A primeira exibição: Pink Jungle: 1950´s Makeup in America, mostrará ícones da maquiagem dos anos cinquenta, e também as mulheres influentes do período como, Marilyn Monroe, Greta Garbo, Audrey Hepburn e outras. A co-fundadora do museu, Doreen Bloch explica a escolha da década pois, coincide com o nascimento da moderna indústria de maquiagem, o aparecimento de marcas pioneiras como Elizabeth Arden, Helena Rubinstein, Max Factor e Sally Hansen, entre outras, e das tendências como o olho de gato e o batom vermelho incandescente.

O museu é inaugurado no momento em que o mercado mundial de cosméticos está em franca expansão. Avaliado em 450 bilhões de dólares, alcançará os 800 bilhões nos próximos cinco anos. Negócios milionários têm sido celebrados. A influenciadora digital, empresária e aspirante a modelo Kylie Jenner, do midiático clã Kardashian acaba de vender sua marca Kylie Cosmetics para a poderosa Coty, por U$ 600 milhões. Ao mesmo tempo, tutoriais de beleza e automaquiagem fazem o deleite dos seguidores e ajudam a construir instantâneas fortunas dos influencers, tudo graças a revolução trazida pelas interação nas redes sociais.

A busca pela beleza pertence aos primórdios da humanidade. É um traço cultural. Cultivar a vaidade e melhorar a aparência é parte de nossa natureza. Porém, esse desejo vem alimentando um ambicioso comércio organizado em escala mundial que aufere lucro com a ilicitude e a fraude. Nesse cenário, surge a atmosfera perfeita para um gigantesco mercado negro de falsificação e pirataria.

Impulsionadas pela vontade de possuir os últimos lançamentos em batons, delineadores, blushs das marcas mais trendy do momento, e apavoradas pela possibilidade de perderem a última oportunidade de comprá-los, estratégia brilhantemente aplicada pelo chamado marketing de escassez, milhares de pessoas apressam-se aos sites dessas empresas em busca frenética pelos tais produtos. Ao não encontrarem, porque normalmente estão propositalmente esgotados, os (as) followers acessam outras plataformas de vendas online que anunciam os mesmos produtos, como E-Bay, Amazon, Ali Baba, Wish e outras.

E, de fato, os brilhos labiais, blushes, sombras dos sonhos lá estão nos marketplaces dos gigantes da internet, porém, em suas versões fake, e normalmente a preços bem mais acessíveis e qualidade no mínimo duvidosa, e, o mais grave, em sua grande maioria repletos de substâncias danosas à saúde.

Análises realizadas em apreensões dos cosméticos falsificados, seja nos pontos de comércio popular das grandes cidades, seja nos produtos apreendidos nos postos alfandegários das fronteiras, em especial nos portos, atestam a presença dos mais nocivos componentes como: chumbo, berílio, arsênico e outros metais pesados. Como são produzidos na clandestinidade, não há preocupação sanitária, já tendo sido encontrados traços de urina de cavalo, fezes de ratos, bactérias estafilococos e outras causadoras de conjuntivites, terçol, furúnculos e dermatites diversas. Uma calamidade pública.

A repressão à falsificação e à pirataria por autoridades policiais, alfandegárias e sanitárias está se tornando cada vez mais difícil, a uma, por se tratar de crimes ultra fronteiras, cujo maior fornecedor é a poderosa China; a duas,  pois a febre dos cosméticos baratos, a oferta ostensiva nos vários meios de mídia é convidativa, em especial aos mais jovens.

Combater o comércio de falsificações é uma guerra perdida pelas autoridades. O poder está nas mãos do consumidor informado. A fórmula dos três “p” é valiosa: preço, ponto, pacote: se um produto está anunciado em vários sites por metade do preço do original; se não está sendo oferecido no site oficial da marca, ou, se a embalagem contém defeitos, a fraude é evidente e deve ser denunciada.

Ana Fábia R. de O. F. Martins – Advogada Especialista em Direito e Negócios internacionais.