O jeca e o petróleo

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Só mesmo Monteiro Lobato para brindar-nos com a visão de que o petróleo já era nosso e de que o Jeca, depois do biotônico, seria capaz de enfrentar a onça.

Só mesmo Monteiro Lobato para brindar-nos com a visão de que o petróleo já era nosso e de que o Jeca, depois do biotônico, seria capaz de enfrentar a onça. O meio rural, cujas transformações a partir dos anos 70 tem sido espantosa abriga, hoje, uma população cada vez mais diminuta mas, igualmente, cada vez mais próspera, com mais produtividade e com mais respeito ao meio ambiente.

 

Existem ainda, é verdade, muitos jecas tatu, embora cercados de bolsas, as tais bolsa escola, bolsa família, cesta básica, etc…, razão pela qual permanecer como jeca está sendo, para muitos, um negócio interessante. Prova disso são os assentamentos  de “agricultores” que nunca se emanciparam. Enquanto isso outra classe de jecas que até meados dos anos 60 plantavam caroço de milho em cova e não semente em linha, estão praticando uma agricultura de fazer inveja aos gringos.

 

A festança dos subsídios que prevaleceu na chamada época da modernização da agricultura, sofreu abrupto golpe com a crise do petróleo em 1973. É bem verdade que a história não se escreve duas vezes, mas olhando o que resultou da crise, vê-se não foram poucos os avanços que ela ensejou. Tivemos que racionalizar a agricultura em virtude do fim da farra do crédito rural via Banco do Brasil, desenvolveu-se um parque avícola que persiste até hoje como um dos mais eficazes do mundo e por aí afora.

 

A crise do petróleo fez o país buscar alternativas como a utilização do álcool como combustível, o que fez resultar daí não só o produto álcool como uma tecnologia da qual o Brasil é o maior detentor do conhecimento. Foi essa tecnologia embrionária à época que está permitindo viabilizar, nos dias de hoje, o esforço mundial para a produção de energia limpa, a energia dos biocombustíveis. Mas não descuidou o país da busca do petróleo, mesmo que diferente do que pensava Monteiro Lobato, se encontrasse no fundo do mar.

 

Ufanismo e jogadas de marketing à parte, o Brasil vem conseguindo, gradativamente, reduzir sua dependência do ouro negro. A chamada auto-suficiência, só se sustenta quando vista em um corte temporal. Mas o Brasil cresce e precisa crescer muito, e a energia mais que qualquer outro insumo da nossa matriz é o fator limitante. Para os biocombustíveis, para a agroenergia, temos aí aproximadamente 100 milhões de hectares de cerrados para incorporar ao processo produtivo.

 

A competência da Petrobrás faz com que o Brasil, através da sua ainda pouco dimensionada jazida Tupi, se inscreva entre os principais produtores de petróleo do mundo. É um fato e tanto, e que nenhum brasileiro o tenha como despercebido. As gerações futuras usufruirão de um país cujas oportunidades será do seu tamanho.

 

*Joaquim Severino – Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná e Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A, escreve nesta coluna desde 1992.