O inegociável agora 

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por Claudia Queiroz

Quando ouço sobre a indústria 4.0 enaltecendo a tecnologia e a quantidade de preparo intelectual necessária para alcançar alta performance, superar metas, ampliar ganhos de produtividade e outras mágicas creditadas à softwares, robótica, e-commerce, plataformas digitais e demais ferramentas da inteligência artificial, …,  questiono em que posição do ranking está a família.

Nem falo sobre projetos sociais ou benefícios, que evidentemente são importantes… Quero saber do ser humano. Aquele que vive sob pressão porque pode ter sua profissão substituída por uma máquina… E que tem filhos em idade escolar… A mulher que adia o sonho de ser mãe (para não perder o cargo) e que surta quando passa dos 40… O indivíduo que vive mais em função da empresa que da própria casa, deixando para a esposa, que transfere para a vizinha, mãe, sogra ou escola o papel de educar os próprios filhos, que por falta de limites flertam com o ilícito e muitas vezes tropeçam feio no abismo das drogas… Isso sem citar os casais que vivem em crise por brigas, traição, violência e tantos outros descompassos.

Como alcançar excelência se a sociedade vive tão doente? Nas rodas de amigos, dificuldades são maquiadas com uma dose a mais de um álcool qualquer ou até mesmo associadas a tranquilizantes. E os consultórios médicos, entupidos de pacientes que imploram por uma receitinha azul estrelada que garante a compra de ansiolíticos ou antidepressivos, porque a desordem mental ultrapassou o nível de suportável há um bom tempo…

Eu conheço pessoas que vão ao psiquiatra e pedem pra aumentar a dosagem do remedinho para depressão porque estão tristes. Hein?! Vamos acordar??? Crescer dói, mas nos fortalece!!!

Quem não conhece alguém em uma situação dessas? O que estou observando é muito sério! Empresas que quiserem mesmo entrar para o time  4.0 precisam investir em desenvolvimento humano. E as pessoas, aprender a ser gente! O mundo está ao contrário e ninguém reparou?

Papéis bem definidos, limites não extrapolados tanto na diversão quanto na pseudodedicação profissional previnem disfuncionalidade nas relações, muitos zeros a menos no orçamento gasto em medicamentos, tantas dores poupadas e sofrimento reduzido. É prevenção primária, literalmente! E nada melhor para os filhos que terem pais felizes, vivendo em harmonia, num ambiente de paz.

Happy hour pode ser qualquer hora do relógio em que se chega em casa com a bagunça de brinquedos espalhados, crianças gritando, cheiro de comida fresca na panela e até mesmo a cama por fazer… Porque certos prazeres da vida só conhecemos tendo intimidade com a simplicidade, quando percebemos os benefícios de viver num ninho acolhedor, cheio de afeto e boa mesa.

Empresa 4.0 com vida longa tem que entender, definitivamente, que existem histórias por trás de cada matrícula funcional. Que a equipe pode até trabalhar feito robô, mas é humana. Tem sonhos, medos, sofre, e continua querendo ir para o céu, sem querer morrer… Todos nós sabemos o preço de quase tudo, mas grande parte já se esqueceu do valor de viver o agora. Até ter que se despedir de alguém bem caro! E aqui entre nós, só neste começo de ano, quantos acidentes nos roubaram preciosas vidas?

Claudia Queiroz é jornalista.