Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins

O consumo desenfreado se tornou um problema para sociedade moderna centrada no modelo ultra materialista como forma de manter o dinamismo da economia, e promover a criação de vagas de emprego para atender à crescente demanda por novos produtos e comodidades. Com o aumento da oferta cresce também a concorrência entre marcas e empresas pela atenção do cliente.
Necessitando sobreviver, é imperativo às empresas criar estratégias para compelir o consumidor a gastar sempre mais, alimentando a ciranda da insaciabilidade quase irracional. A obsolescência programada é uma delas, e consiste em limitar a vida útil de um produto para que dure menos do que deveria ou se esperaria, tornando-se ultrapassado em pouco tempo.
Segundo a revista Super Interessante (julho/2018), nos anos 20 os fabricantes de lâmpadas da Europa e dos Estados Unidos decidiram, em comum acordo, diminuir a durabilidade de seus produtos de 2,5 mil horas de uso para apenas mil, fazendo, assim, com que as pessoas passassem a comprar quase três vezes mais lâmpadas. Esse foi o primeiro caso de obsolescência programada de que se tem notícia.
A obsolescência se manifesta de duas formas: perceptiva, quando os sucessivos e frenéticos lançamentos de produtos vão causando a impressão de que estamos defasados e necessitamos comprar um item mais novo; e funcional, quando o produto tem sua vida útil abreviada intencionalmente, estando relacionada às inovações tecnológicas. Um exemplo é o fabricante de celulares que produz aparelhos cujas baterias possuem vida útil determinada, e a troca por outra bateria nova é dificultada, obrigando o consumidor a comprar novo aparelho.
O mercado da moda adotou e se beneficia da obsolescência perceptiva, que se dá sobre o ponto de vista emocional e é o pilar básico do fast fashion: comprar muito e barato para poder comprar sempre, não importando a qualidade do produto, sendo descartabilidade a marca registrada do conceito aplicado a essa indústria.
A obsolescência no mercado da moda revela-se um grande problema e contribui para multiplicar seu poder destruidor de recursos naturais: para além dos impactos do pré-consumo, como, poluição da água, emprego de químicos, geração de resíduos e gases de efeitos estufa, o volume de roupas usadas que acabam em aterros e lixões – é assustador.
No Brasil, segundo a ABIT – Associação Brasileira da Indústria Têxtil, estima-se em mais de 170 (cento e setenta) mil toneladas por ano a produção de resíduo têxtil apenas do pré-consumo, ou seja, retalhos de indústrias têxteis. Quanto aos resíduos pós-consumo sequer existem dados confiáveis no Brasil.
O que se sabe é que, apenas 1% (um por cento) de todas as roupas descartadas passam de fato por decomposição e reciclagem do material, reaproveitamento das fibras e retorno à cadeia de produção. O processo ainda é caro, demorado e as fibras como de algodão e lã, por exemplo, perdem qualidade quando reaproveitadas. Por essa razão, não há interesse das grandes marcas. Isso faz com que, mundialmente, 85% (oitenta e cinco por cento) das roupas usadas acabam em aterros e lixões a céu aberto. Uma calamidade ambiental.
Segundo Claudia Marsales, líder de iniciativas de gerenciamento de resíduos da cidade de Markham, Canadá, uma das únicas cidades a retirar resíduos têxteis dos aterros, seriam necessários 12 (doze) anos para reciclar apenas o que uma gigante do varejo como H&M vende em 48(quarenta e oito) horas.
Com os recentes clamores por sustentabilidade e o crescimento das vozes críticas ao modelo da moda rápida, grandes cadeias de varejo de roupas vêm promovendo campanhas de logística reversa e reciclagem junto aos clientes. A julgar pelos números desalentadores das estatísticas, fica claro que a iniciativa significa, no refrão da jovem cantora norte-americana JoJo: “too little, too late” .

* Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins é advogada.