O ambiente da estrada rural

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Assim como a qualidade e quantidade de água nos fundos de vales atestam o manejo que se aplica aos recursos naturais, a qualidade das estradas rurais atesta o grau de acerto das estratégias empregadas

Joaquim Severino *

 

Assim como a qualidade e quantidade de água nos fundos de vales atestam o manejo que se aplica aos recursos naturais, a qualidade das estradas rurais atesta o grau de acerto das estratégias empregadas. Para aqueles que não atentam para a complexidade de uma boa estrada rural, estrada de terra como se diz popularmente, a boa estrada é aquela que simplesmente não apresenta buracos e nem atoleiros.

 

Muito mais que isso, e para quem é treinado para perceber, depois da água é a estrada rural quem melhor indica o grau de envolvimento e participação de autoridades e proprietários rurais na questão ambiental rural. Para quem não é treinado para perceber um perfil de solos, nunca descreverá mais que os barrancos existentes na beira da estrada.

 

O exitoso esforço paranaense de manejo integrado de recursos naturais em nível de microbacias é devido, em grande parte, ao componente adequação de estradas rurais. Se nem tanto nos dias de hoje, num passado não muito distante, era através da estrada rural que a população avaliava a administração municipal. Podia não ter escola nem hospital por perto, mas tendo uma boa estrada o acesso a esses serviços facilitava tudo.

 

Sem tecnologia adequada e equipamentos escassos, as estradas rurais sempre foram o tendão de Aquiles dos prefeitos. A primeira grande dificuldade era representada pelo traçado das mesmas que acompanhando os espigões bifurcavam, em forma de espinha de peixe, ribanceiras abaixo. E como se diz, fogo de morro acima e água de morro abaixo, não há quem segure. O lamaçal e as vossorocas eram inevitáveis.

 

A segunda grande dificuldade e que persiste até hoje, na maioria dos casos, é o entendimento do dono da propriedade colindante com a estrada, de que a responsabilidade na conservação das estradas é de exclusiva responsabilidade do poder público, especialmente das prefeituras. Aos poucos vem se dando conta de que se torna mais valorizada a propriedade cujas estradas, tanto de cabeceira como internas, estão ambientalmente adequadas e conservadas.

 

E é nesse ponto que a estratégia deve-se concentrar. Como quase tudo, uma vez mais, a perspectiva de mais dinheiro no bolso fala mais alto. Os vultosos investimentos públicos feitos em estradas rurais no Paraná a partir dos anos 80 principalmente, foram importantes no desenvolvimento da tecnologia de manejo de solo e água e na conseqüente melhoria das estradas.

 

Os tempos são outros. Os financiamentos de agencias internacionais como BID, BIRD e até mesmo OEA, já não são tão fáceis e nem tão generosos como os que impulsionaram o famoso Paraná Rural. Por outro lado, já não são poucos os proprietários que bem administram suas estradas internas e até mesmo as de cabeceira. Engajar os demais nesse esforço é o desafio que a estratégia está a requerer. E como se sabe, estratégia é a inteligência do processo. O incentivo do governo deve ter dosagem certa. Como o arsênico que pode ser remédio ou veneno, que pouco não resolve e muito mata.

 

* Joaquim Severino – Professor de Política Agrícola da Universidade Federal do Paraná e Diretor Presidente da empresa Agrária Engenharia e Consultoria S/A, escreve nesta coluna desde 1992.