Na terça-feira (21), o governo federal desembarcou dos atos pró-Bolsonaro marcados para domingo (26). “Por tratar-se de uma manifestação livre e espontânea, [o presidente] não quer associá-la ao governo”, disse o porta-voz Otávio Rêgo Barros.
Às 21h44, o presidente tuitou: “Quanto aos atos do dia 26, vejo como uma manifestação espontânea da população, que de forma inédita vem sendo a voz principal para as decisões políticas que o Brasil deve tomar”.
E essa atmosfera de buscar tornar o movimento natural e espontâneo deu o tom de grupos bolsonaristas de WhatsApp e Telegram acompanhados pela reportagem durante 24 horas.
Em um dos vídeos compartilhados, o youtuber de direita Alberto Silva, 60 mil inscritos, comentava um discurso de Bolsonaro. “O presidente falou da naturalidade dos protestos, da espontaneidade. O povo vai para rua não aceitar mais os deputados que estão contra o Brasil. Isso [os protestos] vai acontecer de forma natural.”
Links, fotos e vídeos com convocações aos atos e pedidos de compartilhamento, inclusive da postagem acima do presidente, inundam os grupos ao mesmo tempo em que seus divulgadores falam em naturalidade.
A todo tempo, integrantes fazem questão de deixar claro as pautas do protesto para afugentar radicalismo: votação nominal da MP 870, reforma da Previdência, CPI da Lava Toga, pacote anticrime de Sergio Moro.
Marcelo López é um dos mais ativos. “Tem uma galerinha metendo essa de artigo 142 (pedindo fechamento do STF e Congresso), isso está gerando uma imagem muito ruim e tirando legitimidade das pautas reais e importantes”, escreveu.
Ele trava a mesma batalha em outras redes sociais, como no Twitter.
Algumas mensagens citam haver medo de infiltrados nos atos. “Está circulando alerta no Telegram de que infiltrados com bandeira nazista, camisetas nazistas e cartazes pedindo intervenção militar estarão na manifestação popular de domingo agora dia 26 de maio de 2019. Não aceitem provocação, não xinguem, filmem esses criminosos e acionem a PM”, publicou Roberta.
Ao menos nos grupos, os infiltrados eventualmente aparecem, postam alguma mensagem contra Bolsonaro e logo saem/são excluídos, sempre com alguns xingamentos. “O petista nem esperou para tirar ele e já saiu. Típico deles.”
O alerta com referência ao Telegram não é de hoje: o aplicativo russo, similar ao WhatsApp, passou a receber migração de usuários brasileiros. Em outubro, após reportagem do jornal Folha de S.Paulo sobre impulsionamento por empresários de disparo de mensagens contrárias ao PT, esse fluxo foi constatado.
Na busca por grupos bolsonaristas abertos, a reportagem conseguiu encontrar com muito mais facilidade links do Telegram, inclusive uma lista com um grupo por estado.
O número de membros e a frequência de postagens segue um padrão populacional -no Acre são 90 membros e nenhuma mensagem das 2h às 6h; enquanto em São Paulo há 955 membros e o grupo ficou ativo durante toda a madrugada.
Há uma preocupação muito grande em manter o grupo longe de spams ou automatizações. Sempre que um novo usuário com nome árabe ou russo entra, é logo removido pelo administrador. “Aqui não é lugar de bot!”, diz uma mensagem.
A procura por grupos no WhatsApp se revelou frustrante. Quando a reportagem encontrava, descobria que eles haviam sido criados na época da eleição e não estavam mais ativos. Ou então eram grupos em que só administradores podiam mandar mensagem e não havia interação.
Nesses grupos, o volume de material aleatório postado é tão grande que às vezes se passam horas sem um diálogo de fato.
Correntes não faltam, inclusive uma que elenca 110 ações de Bolsonaro em quatro meses. Alguns itens da lista chamam atenção pelo tom exagerado, como o 98 (“comeu macarrão em pé com a faixa presidencial”) e o 99 (“foi ao aniversário do filho de sua assessora com o tema de Bolsonaro”).
Em meio ao mundaréu de material há muita notícia praticamente em tempo real -a reportagem encontrou poucos exemplos de fake news “raiz”, em que todo o conteúdo é mentiroso, e sim apenas pequenos erros de informação.
Poucos minutos depois de o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), fechar acordo com o centrão para votar a MP 870, de reestruturação dos ministérios, as reações já estavam nos grupos -a medida foi aprovada pelos deputados nesta quarta (22).
“Começaram a ficar com medo das manifestações que vai acontecer no dia 26/05 e resolveram aprovar as medidas, mas nós não vamos engolir essa. Mesmo assim vamos pra rua mostrar para o centrão a política velha que queremos mudança urgente e o Presidente Jair Bolsonaro está blindado pelo povo de bem”, escreveu Sony@ Souz@.
Os links de YouTube que circulam nos grupos geralmente foram publicados na mesma data, com comentaristas repercutindo os principais fatos do dia. Nessas 24 horas, por exemplo, predominaram vídeos criticando o MBL (Movimento Brasil Livre) e o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) -que, apesar de se identificar com liberais e grupos de direita, é tratado como “comunista”.
“Já saíram dos canais do MBL hoje?”, instiga César Garcia, em referência às críticas de bolsonaristas ao movimento, que decidiu não participar das manifestações de domingo.
Sem ter a ver diretamente com os protestos, as armas estão sempre presentes. Há desde uma transmissão ao vivo de game de tiro em que os jogadores comentam política (“vocês conhecem o curso de dramaturgia do Mamãe Falei?”) até um vídeo do canal Diário do Atirador, no qual o youtuber reclama com a Taurus de um defeito no seu recém-adquirido aparato.
Bolsonaristas estão confiantes no sucesso dos atos, como escreveu Osvaldo Júnior, num tom que lembra a mensagem do pastor congolês que defendeu Bolsonaro como um político “estabelecido por Deus”,
“Dia 26 sairemos à Rua, ungidos por Deus, de maneira pacífica e ordeira como sempre, em apoio às reformas do presidente @jairbolsonaro! Será IMPORTANTÍSSIMO para o Brasil pois há forças contrárias, as mesmas que roubaram esta Nação por 3 décadas! ”
E a música que pode ser o grande hit dos atos já está circulando nas redes. “Vamos pra rua neste domingo/Todo poder emana do povo/Brasil brasileiro”.
O autor é o venezuelano El Veneco, que mora no Brasil e tem um canal no YouTube. Nas eleições, emplacou sucessos entre os apoiadores de Bolsonaro.