NÃO JOGADO

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O jogo sucessório ainda não está inteiramente jogado, apesar de as pesquisas indicarem crescimento de duas candidaturas, à direita (Jair Bolsonaro) e à esquerda (Fernando Haddad). Especialistas que se debruçaram sobre os dados identificaram possibilidade de retomada da trajetória de Ciro Gomes à esquerda ou de progressão do voto útil à direita; restando considerar a parcela do eleitorado que ainda não se definiu, como as mulheres – tradicionalmente o último bloco de votantes a tomar posição.

ANÁLISE

Na primeira hipótese, o ex-governador cearense saltaria da terceira posição para a segunda, retirando do candidato petista a possibilidade de disputar o segundo turno. No caso de a campanha pelo voto útil decolar poderia haver ainda, perspectiva eleitoral para o ex-governador paulista, não obstante o desgaste de Geraldo Alckmin em São Paulo e sua limitação em carisma eleitoral (fala como professor em sala de aula, não tribuno arengando às massas).

NOME DE CENTRO

Maurice Duverger, tratadista pioneiro do sistema de partidos políticos, reconhecia na França do pós-guerra que eleições majoritárias geram uma tendência de polarização que pode esmagar o centro do espectro político. Fenômeno que se repete na atual campanha presidencial: candidatos situados na extremidade do arco comprimindo os postulantes colocados mais ao centro da disputa.

NOME DE (II)

Articulador de um “polo democrático e reformista”, lançado em junho para tentar unificar o centro na corrida presidencial deste ano, como o goiano Vilmar Rocha – presidente do PSD local e secretário da Casa Civil do governo do estado -, admitiu tratar-se de “uma ideia generosa e muito dentro do que o Brasil precisa neste momento, que é conciliação”, mas que não decolou.

NOME DE (III)

Rocha justificou que sua proposta não teria sido politicamente bem conduzida por falta de tempo “para se chegar a essa unificação”; diferente do que teria sucedido se o grupo tivesse apostado em uma candidatura única de centro desde o início. Outro prócer, o deputado baiano José Carlos Aleluia, ainda manifestou esperança nesse avanço – com o voto útil.

ANÁLISE

O problema não foi falta de tempo, nem da articulação de candidatura única. A conjuntura não favorecia a possibilidade de um só nome liderando a corrente centrista, pela ausência desse personagem providencial. As circunstâncias – crise moral à esquerda, derivada dos escândalos de corrupção (petróleo); dificuldades do governo intermediário de Temer e conjunção do protagonismo judiciário com militância da imprensa – entre outras, pautaram o cenário.

VOTO ÚTIL

A esta altura – faltando duas semanas para o pleito – começam a pipocar sugestões de outro calibre: convergência de candidatos e votantes por um nome palatável ao centro, beneficiário do “voto útil”. Eleitores mais pragmáticos, conscientes de que seu candidato “in pectore” tem pouca chance, tendem a migrar para a alternativa mais próxima de sua preferência eleitoral. Nessa toada, pessoas posicionadas na faixa de centro-esquerda descartariam por ex. a candidatura de Marina Silva em proveito de Ciro Gomes. No outro lado os votantes de Meirelles e Álvaro tenderiam a favorecer Geraldo Alckmin.

VOTO (II)

Ou ainda, por opção regional, votantes domiciliados no Nordeste poderiam engrossar a chance de Ciro se o candidato preferencial Haddad enfrentar concorrência acirrada do presidenciável Bolsonaro. No Centro-Sul poderia ocorrer fenômeno parecido, com eleitores de Alckmin direcionando apoio a um dos competidores mais viáveis – Bolsonaro ou Haddad – para evitar a vitória do adversário menos preferido.

ANÁLISE

A questão vai perdendo relevância, à medida que se acumulam pesquisas apontando polarização à direita (Bolsonaro) e esquerda (Haddad). Para aliviar a rudeza dessa realidade vale relembrar a antológica fase do jogador Garrincha em resposta a quem, numa Copa, aventou solução semelhante: “Tudo bem ‘seo’ Feola: só falta combinar com os russos”.

ANÁLISE (II)

Ou, abordagem mais acadêmica – e um tanto crítica do ideário democrático – recordar a advertência do professor Hélio Jaguaribe, pioneiro de estudos políticos que nos deixou recentemente: no Brasil a democracia plena universalizou o direito ao voto, superando restrições do modelo censitário dos primeiros tempos. Porém não ofertamos uma educação política que, ao final, conduza à escolha dos melhores.

REAGE, BRASIL

Mirando além da conjuntura eleitoral há um universo de possibilidades e desafios: conforme registra um slogan televisivo, o mundo não para. O Brasil conquistou a terceira posição como maior exportador agrícola, porém precisa reforçar a “cadeia global de produção” agregando valor aos itens gerados no campo. Ainda, acelerar a formação educacional invertendo a matriz escolar que dá ensino superior gratuito às faixas de cima da população e desconsidera a base inicial (crianças de creche até o fundamental e médio).

ANÁLISE

Avaliações feitas na semana em Curitiba. Na terça, palestra do presidente da Volvo, Wilson Lirmann (Brasil e América Latina), para o Conselho de Jovens Empresários da Associação Comercial do Paraná. Na quarta, fórum de investimentos na Federação das Indústrias. Em cena, a sociedade e economia de 4ª geração (carros conectados, caminhões autônomos colhendo cana no norte paranaense, startups vendendo soluções de informática ao exterior, agência captando investimentos ao Paraná).

Rafael de Lala e Vagner de Lara, jornalistas

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