por Claudia Queiroz

Eu apanhei na escola. Foram várias vezes! Nunca revidei… Acho que nem sabia como fazer isso naquela época. A palavra Bullying não existia, muito menos pessoas interessadas em mudar esse hábito horroroso.

Havia uma garota que gostava de me maltratar. Conseguiu quebrar meus óculos algumas vezes, até minha mãe comprar um modelo muito mais resistente, inquebrável e medonho, marrom com manchas amarelas. Ela me empurrava, puxava meu cabelo… Então eu chegava em casa e apanhava de novo, por conta disso. Demorou para eu aprender a me defender, evitar, impor limites, determinar espaços, …, mas consegui. Com ajuda de autoanálise, terapias, yoga, meditação e, claro, boxe.

Porém, anos mais tarde, eu quase bati ‘numazinha’. Ela insinuou chutar minha cachorrinha que ‘tentava’ socializar com a dela, no pátio do prédio onde morávamos. Num impulso eu disse:

– Ei, deixa eles se cheirarem. Isso é comum entre caninos. Se brigarem, resolvemos. Mas se tocar nela vai ter que se entender comigo!

Tcharammm! O fato foi suficiente para selarmos uma antipatia mútua que durou praticamente um ano.

A partir dali, antes de descer com minha cachorrinha, eu fiscalizava, olhava pela janela procurando me certificar se a tal estava lá embaixo. Ligava para o porteiro e tentava evitar o desagradável encontro. Ela me estressava tanto…, melhor, esse é o ponto, ‘eu me estressava tanto com ela’ que mesmo sem perder o controle, implicava com detalhes, como a camiseta azul clara e a bermudinha de lycra preta que ela usava ‘todo santo dia’ para o passeio com a provável única amiga dela… (maldade à parte).

Abrir a porta de casa, para um passeio com minha cachorrinha, trazia uma sensação de morder uma empada esperando bater os dentes no caroço… Essa loucura estava me deixando doente. Mas a desafeto não sabia disso. Então eu julgava que talvez essa fosse a melhor ‘vingança’. Porque quando cruzávamos eventualmente ela continuava com as provocações no olhar, porém, sustentando lábios trêmulos. Era como se eu estivesse ‘ganhando a briga’. Até quando eu alimentaria tanta ilusão?

Certo dia, segurei a porta do elevador para ela entrar. Minha falsa gentileza não foi suficiente para ela desfazer aquela cara feia e azeda. Nesse momento eu poderia muito bem ser grosseira, mantendo aquela situação ruim eternamente. No entanto, sem mesmo me dar conta, olhei para ela e disse: – “Sinto muito. Reconheço que exagerei aquele dia….”. Ela olhou para mim meio espantada, um pouco mais simpática, e respondeu: – “Tem razão, acredito que nem eu nem você estávamos bem”.

Nossas escolhas erradas e infantis estavam sendo mais prejudiciais do que sequer poderíamos imaginar. Aquela dose diária de agonia que vivi na infância me preparava, sem eu saber, para situações muito maiores e desafiadoras…, não para me deixar presa em picuinhas. Eu não merecia mais dores ridículas como daquela rinha feminina e tantas outras que sabemos criar. Vivi mal por todo aquele ano, só que o sofrimento estava em mim e não onde eu morava. Foi exatamente meu ato falho, impensado e espontâneo de pedir desculpas que livrou as duas daquele mal-estar. Mostrou a mulher gigante que me tornei e que alimento ainda mais a cada dia.

Reprogramação mental é uma grande moeda de troca. Tempo e amadurecimento suficientes nos permitem compreender que cada um carrega em si mesmo diferentes facetas. Estar aberta à realidade possível cria oportunidades para transformarmos problemas, dores e angústias, em força, motivação e crescimento… 

Naquele dia esqueci definitivamente o ‘caroço da empada’. Santo elevador. E sabe a menina que quebrava meus óculos na infância? Sem querer me mostrou que eu precisava mesmo deles… Não para enxergar objetos, pessoas ou a lição da escola, até porque descobri mais tarde que a minha visão nem era ruim. Mas ver a vida por mim mesma, enxergando além daquilo que podemos observar. Lições que a interpretação de um mundo bem maior traz. ‘Apanhar’ foi uma experiência incrível. Quando finalmente entendi que muitas vezes fui eu mesma quem me bateu.

Claudia Queiroz é jornalista.