A obra de van Gogh nos paredões do salão da antiga fundição

Para quem pretende ir a Paris ainda este ano, um programa imperdível é a exposição das obras do pintor holandês Vincent van Gogh (1853-1890) em cartaz no Atelier des Lumières, no 11º arrondissement (distrito) da capital francesa. A mostra, que abriu em fevereiro, vai até 31 de dezembro.

Mas não se trata de um simples contemplar do trabalho desse gênio da arte que só foi reconhecido após sua morte. A exposição – chamada de “A noite estrelada” – é uma verdadeira imersão no conjunto da obra de van Gogh, exibida em sistema audiovisual com movimento de alta definição nas imensas paredes lisas e/ou irregulares, e também no teto e no piso, de uma antiga fundição transformada no primeiro centro digital de arte de Paris. Há também outros ambientes, como uma sala de espelhos que multiplica as imagens.

Atelier des Lumières: além da fachada convencional, um mundo de surpresas

A projeção, contínua, realça os detalhes e as cores – ele, por alguma razão, dava preferência ao amarelo – da obra de van Gogh, que desfila diante do olhar admirado da plateia. A hora e pouco que o visitante passa lá dentro é composta de momentos mágicos, com o espectador literalmente envolvido pelos sons e matizes. Há poucos bancos e curte-se a mostra em pé, mal sentado ou mesmo deitado. Fui, em julho, um dos privilegiados espectadores desse espetáculo, ao lado de minha mulher Tania e de minha filha Fernanda.

Um detalhe importante é que a compra dos ingressos deve ser feita com antecipação, via internet (atelier-lumieres.com). O preço normal para adultos é de 14,50 euros por pessoa (cerca de 68 reais, incluindo o IOF); idosos pagam 13,50 euros; estudantes, 11,50 euros; crianças e jovens entre 5 e 25 anos, 9,50 euros. O ingresso só vale para a hora marcada.

Painéis detalham as diversas fases da mostra

O Atelier fica na rua Saint Maur, 38, entre a rua de Chemin Vert e a Passage Dudouy. Abre de segunda a quinta-feira, das 10h às 18h; sexta e sábado, até às 22h; e domingos, até às 17h. Para chegar lá, são três as linhas de metrô: Voltaire-Saint Ambroise (linha 9), Rue Saint Maur (linha 3) e Pére Lachese (linha 2); de ônibus, pelas linhas 46, 56, 61 e 69.

Uma atração não muito distante dali é o cemitério de Père Lachaise, onde estão sepultados nomes como Molière, Honoré de Balzac, Fréderic Chopin, Oscar Wilde, Marcel Proust, Modigliani e o roqueiro Jim Morrinsson, entre incontáveis famosos.

A VELHA FUNDIÇÃO
Quem passa pelo número 38 da rue Saint Maur não imagina que a fachada comportada daquele edifício de cinco pavimentos afora o térreo abriga em seu piso inferior um imenso espaço de pé muito alto transformado nos últimos anos num importante centro de artes. Cruzando a porta principal e a loja de suvenires/livraria, chega-se a uma parede pintada de preto, que dá acesso ao salão. É como ingressar num mundo a parte.
A obra de Vincent van Gogh se espraia pelas paredes, dinâmica, vídeo e áudio harmonizados, assim como a mostra inaugural, em 2018, contemplou o pintor austríaco Gustav Klimt. Ali, há quase dois séculos, funcionou uma fundição – a Fonderie du Chemin-Vert, que produzia peças para estradas de ferro e para a Marinha.
A fundição, criada em 1835 pelos irmãos Jacques François Alexandre e Hilaire Pierre Plichon fechou em 1929, depois de ser administrada por quatro gerações da família, e o espaço foi vendido à família Martin, dona de uma fábrica de máquinas operatrizes, como conta o site oficial do Atelier.
A empresa mudou-se em 2000 e o lugar ficou fechado até ser alugado, em 2013, pela Culturespaces, empresa gestora de centros de arte e organizadora de exposições temporárias imersivas e digitais, com atuação também na Provence.
A transformação da velha fundição no Atelier des Lumières durou cinco anos. A inauguração foi em 13 de abril de 2018, com três exposições: “Gustav Klimt” e “Hundertwasser”, dirigidas por Gianfranco Iannuzzi, Renato Gatto e Massimiliano Siccardi – e “Poetic_AI”, instalação contemporânea proposta pelo coletivo Ouchhh.
A exposição sobre van Gogh, também obra de Iannuzzi, Gatto e Siccardi, revela a vida do pintor atormentado que transferiu seus sentimentos para mais de duas mil obras, apenas nos últimos 10 anos de vida. “A noite estrelada” é dividida em temas, que retratam a luz da Provence, os primeiros trabalhos, a natureza, a passagem por Paris, o tempo em que ele viveu em Arles, no sul da França, e os bosques de cipestres e campos de oliveiras, que ganharam força através de sua paleta de cores. Anexo ao salão há um espaço com painéis detalhando essas fases de van Gogh.
Além da mostra do artista holandês, há dois complementos, também audiovisuais – “O Japão sonhou, imagens de um mundo flutuante”, dirigido por Danny Rose; e “Verse”, criação contemporânea de Thomas Vanz.