* Ana Fábia Ribas de Oliveira Ferraz Martins

Muito tem se ouvido a expressão moda autoral, e do destaque da cidade de Curitiba como um hub desse gênero criativo, estimando-se em 120(cento e vinte) o número de ateliers na cidade. O que poucos talvez saibam é que nossa cidade integra, desde o ano de 2014 a UNESCO Creative Cities Network (Rede de Cidades Criativas) que abrange áreas como gastronomia, música, literatura, artesanato e arte popular e mídias artísticas, sendo composta por 28 cidades de 19 diferentes países.
Então, figurando Curitiba ao lado de players tão importantes da estatura de Berlim, Buenos Aires, Shanghai, Montreal, Saint-Étienne, etc., como local de destaque pela sua inovação e criatividade, tornando-se uma das referências mundiais do design e projetando-se também como polo de moda autoral, o que é, afinal, essa manifestação criativa já tão desenvolvida em nossa capital, com nomes da moda made in Curitiba apresentando coleções nacional e internacionalmente?
O design de moda autoral pode ser definido como um contraponto ao design comercial, que foi idealizado para o consumo em massa e para a realização dos objetivos do chamado fast-fashion, cuja filosofia é produzir em série, vender muito, vender rápido, vender barato, com pouca qualidade, inundando o mercado de mercadorias, lançando em média 8 (oito) coleções ao ano. É a filosofia que enxerga as roupas como bens descartáveis, é a massificação da moda, impulsionada pelo grande afluxo de informações que viajam pelas redes sociais, propiciando que, em instantes, uma peça exibida em um desfile de uma grande marca de luxo mostrado em algumas das mais badaladas semanas de moda do mundo se torne desejo absoluto e, em questão de dias esteja reproduzida em todas os pontos de venda de alguma cadeia de moda rápida.
Ao contrário, a moda autoral é uma manifestação da criatividade do designer, que irá envolver-se em todos os passos da construção de suas peças e coleções, desde a escolha do tecido até o produto final. Como é resultado da inspiração e da bagagem cultural do estilista, a criação autoral não se vincula a determinadas tendências impostas pelo design comercial, produzindo peças mais exclusivas voltadas a um público específico ao qual não agrada o conceito de consumo de massa, sendo a epítome do conceito de slow fashion, movimento que nasceu há aproximadamente 10 (dez) anos em reação à irracionalidade consumista do fast fashion, e que, se por um lado, gerou maior acessibilidade ao consumo de moda, de certa maneira também degradou o mercado.
Normalmente, o estilista autoral possui profunda preocupação com toda a cadeia de produção, a começar pela escolha da matéria-prima e sua procedência, acompanhando muito proximamente a confecção das peças, empregando sempre mão de obra local, valorizando e capacitando a comunidade onde está inserido. Por meio de suas criações, manifesta o conceito que pretende dar à sua marca, que reflete suas experiências pessoais, profissionais, e traz identidade à cada peça elaborada, ao contrário da produção de moda “em atacado”.
A moda autoral é portanto um novo nicho em um movimento que atualmente só vem crescendo e agrega diversos conceitos e valores como: sustentabilidade, aproveitamento de resíduos, cadeia produtiva ética e limpa, utilização de produtos e mão-de-obra local, valorização da economia criativa e do design, transparência e respeito aos direitos humanos, motivando reflexões sobre novas formas de consumo de moda mais genuíno, consciente e eficiente.

 Ana Fábia Ribas de Oliveira Ferraz Martins é advogada especialista em Direitos e Negócios Internacionais.