JOÃO GABRIEL
FOLHAPRESS – Com orçamentos milionários, os clubes da Série A do Campeonato Brasileiro tiveram em 2019 problemas recorrentes de atrasos de pagamentos a jogadores. Das 20 equipes da elite do Nacional, pelo menos 10 não quitaram no prazo previsto salários e premiações para seus jogadores na atual temporada.
O problema atinge clubes que estão em situações distintas no torneio. Desde os que disputam as primeiras colocações, como Santos, Corinthians e São Paulo, até os que brigam para não cair para a Série B, como Chapecoense, Cruzeiro e Fluminense.
Desde 2015, o regulamento de competições da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) estabelece penas, como perda de pontos, para equipes que atrasarem mais de um mês de salários a seus jogadores ou funcionários. As ocorrências devem ser denunciadas ao STJD (Supremo Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).
Na Série B, houve denúncia do Figueirense, que atrasou salários. Os atletas chegaram a fazer greve. Na ocasião, foi o Ministério Público do Trabalho que denunciou o caso, que ainda será julgado.
Já na primeira divisão, os atletas evitam denunciar as agremiações. Com isso, mesmo casos de atrasos que se tornaram públicos acabam não chegando ao tribunal.
“Quase nenhuma denúncia chegou ao STJD em 2019”, disse o procurador-geral do órgão, Felipe Bevilacqua. Segundo ele, há receio dos jogadores e de seus representantes para levar adiante casos assim. “[O fato é que] as pessoas que teriam maior interesse não denunciam.”
Em setembro, os jogadores do Botafogo manifestaram sua insatisfação com a falta de pagamento, que atingiu também os funcionários, e se recusaram a participar das ações de marketing do clube.
Outros clubes do Rio, como Fluminense e Vasco, têm problemas semelhantes. Líder do Brasileiro, o Flamengo é exceção no estado, sem casos de inadimplência com atletas.
“A gente teve o pagamento de quatro folhas salariais [que estavam pendentes da antiga gestão] no período de três meses”, afirmou Mario Bittencourt, presidente do Fluminense. Endividado, o clube tem sofrido com penhoras, como a que bloqueou mais de R$ 11 milhões da venda do atacante Pedro à Fiorentina.
O Vasco viveu problemas semelhantes na temporada. O clube diz ter um plano de recuperação financeira de seis anos para tentar reduzir as dívidas. “Nosso foco é construir um futuro a médio prazo muito maior, mas a curto prazo a gente reconhece os problemas”, disse o vice-presidente de controladoria do clube, Adriano Mendes.
“A obrigação do Vasco é reconhecer que tem que pagar os salários dos jogadores, da comissão técnica e dos funcionários”, afirmou o técnico Vanderlei Luxemburgo, em julho. Na época, ele disse que não receberia o seu salário enquanto o clube não quitasse os “dois ou três meses” de atraso com os atletas do elenco.
Durante o Campeonato Paulista, o técnico do Santos, Jorge Sampaoli, fez o mesmo que Luxemburgo quando seus jogadores deixaram de receber. No Campeonato Brasileiro, a equipe paulista –que chegou a liderar o torneio e está atualmente na terceira colocação– voltou a atrasar pagamentos para os jogadores.
Segundo o presidente do Sindicato de Atletas do Estado de São Paulo, Rinaldo Martorelli, a situação dos jogadores da primeira divisão está atualmente dentro de um “limite de suportabilidade”.
“Neste ano, não chegou a ponto de ter que notificar algum clube”, diz o sindicalista.
Já o presidente do sindicato do Rio, Alfredo Sampaio, conta que a entidade chegou a denunciar equipes ao STJD no passado. Segundo ele, existe uma “bola de neve”: dívidas passadas que encurtam o orçamento atual e que compromete as receitas futuras.
“Não adianta você denunciar, fazer o time perder pontos. Isso só vai piorar a situação. Esse equilíbrio a gente tem que ter, saber quem não paga por sacanagem e quem não paga porque a situação é difícil”, afirmou Sampaio.
A Lei Pelé permite ao atleta se desligar de uma equipe sem pagamento de multa contratual caso fique três meses sem receber o salário registrado na Carteira de Trabalho. Há no STF (Supremo Tribunal Federal) uma ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade), enviada pelo senador Romário (Podemos-RJ), que diminuiria o limite para 30 dias.
O endurecimento da lei, porém, pode ter efeito limitado, já que existem outros pagamentos que o clube faz aos jogadores além do salário.
Muitos atletas da Série A do Brasileiro complementam seus vencimentos com contratos paralelos ao de trabalho, como o de cessão de direitos de imagem. Na maioria dos casos, o atraso acontece nesses pagamentos, que não contam com a mesma proteção de vínculos empregatícios.
Entre os clubes de São Paulo, apenas o Palmeiras não atrasou pagamentos na temporada. O São Paulo ficou inadimplente mais de uma vez neste ano no pagamento de direitos de imagem e dos prêmios por vitória aos atletas.
“Historicamente, o São Paulo nunca atrasou salários CLT, incluindo férias, 13º e FGTS. Nem de funcionário nem de jogador”, disse o diretor jurídico Leonardo Serafim.
Já o Corinthians demorou cinco meses para pagar o bônus pelo título paulista, conquistado em abril. Segundo o diretor financeiro Matias Ávila, o clube não deve “mais nada aos jogadores do elenco”.
A temporada de 2019 marcou uma mudança no fluxo de receita dos clubes. Com o novo contrato de TV em vigor, os pagamentos foram alterados e deixaram de ser feitos em parcelas mensais iguais.
O valor total passou a depender do desempenho no torneio, do número de partidas exibidas na TV aberta e do total arrecadado com a venda da pacotes de pay-per-view. O que dificultou o planejamento financeiro dos clubes.
Muitas diretorias não conseguiram se preparar para a mudança. Ainda assim, para o consultor de gestão e finanças do esporte, Cesar Grafietti, o “elemento novo” no fluxo de caixa não justifica os atrasos, uma vez que já era de conhecimento dos clubes desde 2017.
“Quase todo negócio tem sazonalidade. É preciso se preparar para isso. Não adianta reclamar da distribuição da TV. Afinal, empurra o problema para outro”, afirma.
Procurados, Cruzeiro, Botafogo, Fluminense e Santos não quiseram se manifestar sobre o assunto.

Pagamentos para atletas que atrasaram em 2019
Atlético-MG
Salários
Direito de imagem
13º salário

Botafogo
Salários
Direitos de imagem

Chapecoense
Direitos de imagem

Corinthians
Bônus por resultado

Cruzeiro
Salários
Direitos de imagem

Fluminense
Salários
Direitos de imagem

Goiás
Direitos de imagem

Santos
Salários
Direitos de imagem

São Paulo
Direitos de imagem
Bônus por resultado

Vasco
Salários
Direito de imagem
13º salário