*por Claudia Queiroz

Comprei uma caixinha em formato de cofre. Minha intenção é usá-la para guardar bons pensamentos. A partir de agora, anotarei num papel pelo menos uma coisa boa que tenha acontecido no dia. E o que tem de especial nisso? Um novo padrão mental, valorizando a gratidão. Nossos dias são tão bombardeados de problemas, correrias e notícias desastrosas que, ao registrar num bilhete, mesmo apenas para mim, colecionarei outras ideias.

Será um antídoto para o mal humor, mau amor, tensão pré-menstrual, noites insones ou quando simplesmente acordar com meu ‘pé esquerdo’ chutando a sombra… Abrir e rever cada registro ressignificará o tempo em fases melhores e piores, mas com a capacidade especial de eternizar lembranças, numa caixinha de recordações.

Parece simples imaginar a quantidade de histórias que viveremos até o fim dos dias. Não há como saber sobre o prazo de validade ou prever a morte. Digo isso porque uma tia querida tem quase 90 anos. Fez aniversário dia desses. Sofre de Alzheimer, uma doença que apaga parte das memórias. Muito bacana e até divertido vê-la feliz, agradecendo a cada 10 minutos o mesmo presente… Ela ganhou festa, abraços, bolo, assoprou quase cem vezes, na mesma data, as velinhas desde que nasceu e, no dia seguinte, dessa vez, esqueceu boa parte de tudo o que viveu. No entanto, a comemoração continuou valendo para nós, da família dela. De alguma maneira ela sente que é amada e isso é o mais importante.

Outro exemplo vem da arte que imita a vida no cinema. Há alguns anos assisti um filme em que a mocinha (Drew Barrymore) sofria com a falta de memória, só que neste caso, de curto prazo. O desafio do protagonista (Adam Sandler), um veterinário paquerador, era conquistá-la todos os dias para ficar ao seu lado. “Como se fosse a primeira vez”, uma história inspiradora, que cria mecanismos para eternizar aqueles momentos que não podem ser esquecidos.

Eu não sofro de perda de memória. Mas assim como tantas pessoas, às vezes valorizo coisas que não deram certo e deixo de lado situações incrivelmente positivas… Por isso meu cofrinho novo guardará um tesouro especial de memórias! Espero que fique cheio logo e que tantos registros também façam eco em meu sorriso.

Sementes e pensamentos podem ser igualmente cultivados, para que cresçam e gerem frutos. Já se deu conta de qual lado você mais valoriza na sua vida? Criei este desafio para transformar emoções em comportamentos e mudar um hábito que às vezes contamina os ânimos.

Entende onde quero chegar?  Se a definição de reclamar é ‘clamar a Deus de novo’ por algo que não está a contento, imagine se mudarmos a chave das nossas emoções para agradecer, ou seja, facilitar a graça descer… ‘Capice?’ Pergunto com as mãos de quem não esconde o temperamento italiano na genética.

Se dizem, e eu acredito, que pensamentos criam realidades, vamos focar no que queremos. Isso nos protegerá daqueles impulsos inconscientes que geram negatividade. Insistir na mecânica da mente, sem dispersões ou repetecos impensados de letras de músicas que ‘deixam a vida nos levar…’.

Assumir o comando mental numa melhor direção é a garantia de destinos espetaculares, mesmo que, por alguma razão, alguns sonhos não sejam realizados. Bem mais que desejos ao vento, essencial é o caminho, não a chegada. Registre tudo o que puder, colecione conchinhas da praia, pedrinhas em trilhas, beijos de amor, cheiros, estrelas… Plante tudo isso no coração e escreva para não esquecer. O resto? Já nem lembro mais.  

Claudia Queiroz é jornalista.