SYLVIA COLOMBO
QUITO, EQUADOR (FOLHAPRESS) – Grupos indígenas que protestam contra o aumento dos combustíveis no Equador capturaram oito policiais em Quito, nesta quinta-feira (10).
Em seguida, os agentes uniformizados -dentre os quais uma mulher- foram exibidos pelos manifestantes no pátio da Casa de la Cultura, um centro cultural onde os ativistas estão acampados.
A apreensão acontece após o local ser invadido pela polícia na madrugada desta quinta. Os agentes desrespeitaram um acordo entre os manifestantes e o governo que estipulava a Casa de la Cultura como uma “zona de paz”, ou seja, um local de repouso dos ativistas.
Os policiais também entraram em outras zonas de paz -a Universidade Pública Salesiana e o acampamento no parque El Arbolito-, aumentando a repressão contra os indígenas no oitavo dia de manifestações contra as medidas de austeridade determinadas pelo presidente Lenín Moreno.
As forças de segurança atiraram bombas de gás lacrimogêneo e agrediram a muitos com golpes de bastão, em uma tentativa de dispersar os manifestantes.
Pela manhã, podia-se notar restos de objetos queimados e de barreiras recém-derrubadas no parque El Arbolito.
O levante, o pior no Equador em anos, ocorre devido a um acordo assinado com o FMI (Fundo Monetário Internacional), que garantirá um empréstimo de US$ 4,2 bilhões (R$ 17,05 bilhões) ao país. Em contrapartida, o governo tem de adotar medidas como o corte de um subsídio a combustíveis em vigor há quatro décadas.
A decisão gerou um aumento de até 123% nos preços da gasolina e do diesel e revoltou a população. Na terça (8), o presidente afirmou que não voltará atrás no corte dos subsídios e negou que vá renunciar.
Nesta quinta, as lideranças indígenas negaram que tenham começado diálogos de paz com o governo -como o presidente Lenín Moreno afirmou no dia anterior-, e disseram que seguem mobilizadas até que se derrogue a decisão de eliminar o subsídio ao combustível.
Além disso, a principal organização indígena do país chamou seus membros a radicalizarem as manifestações. “Nada de diálogo com um governo assassino”, disse a Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas), em um comunicado assinado por seu presidente, Jaime Vargas.
Um indígena foi morto nas manifestações de quarta (9). É o quinto óbito desde o início dos protestos. Ao menos 766 pessoas ficaram feridas até o momento.
Já no centro da cidade, o movimento do comércio começou a ser retomado, após estar quase totalmente fechado na quarta (9), em função dos protestos e de saques em mercados de comida em Quito e em Guayaquil.
Logo cedo, comerciantes levantavam as portas metálicas de seus estabelecimentos e retomou-se, em parte, o serviço de transporte público, embora muitas caminhonetes ainda circulassem pela cidade com passageiros do lado de trás.
O presidente regressou a Quito na quarta à noite, para monitorar a situação com os manifestantes. Ele estava na cidade costeira de Guayaquil, a 400 km da capital, para onde transferiu a sede do governo devido à violência dos protestos na capital.
Apesar disso, o clima nas ruas de Quito ainda é tenso. A poucas quadras do Palácio de Carondelet, sede do Executivo, havia bloqueios por parte da polícia. Além das placas de metal tradicionais, o cerco era reforçado por arame farpado.
A maior barreira se encontrava na esquina das ruas Guayaquil e Olmedo, cenário de um dos mais duros confrontos da última semana. Ali, a própria polícia estava com a cara coberta enquanto montava essas barreiras. O cheiro de gás lacrimogêneo dos últimos dias era forte e fazia arder os olhos.
Houve várias passeatas pequenas entre a região central e a de El Ejido, setores da cidade onde se concentram os protestos. Eram grupos pequenos, de menos de cem pessoas, cada um carregando bandeiras de suas etnias e nacionalidades. Espera-se mais protestos para esta quinta à tarde, além da realização de uma missa em homenagem aos mortos.