*por Claudia Queiroz

Antes de ser mãe, eu achava que ter filhos era uma espécie de truque do ego. “Tem meus olhos e sorriso, o nariz do avô, o dedinho torto da avó, o senso de humor do pai, …., e assim por diante.” Identificação por semelhança que fortalece laços e reforça vínculos.

Mas cada um de nós carrega também a liberdade de olhar, sorrir, experimentar e brincar com o que quiser. Nenhuma criança pode ficar limitada às projeções que fazemos para nos auto afirmar numa espécie de continuidade genética ou de força de DNA.

Não importa a idade, nossos filhos merecem ser ouvidos, respeitados, orientados, cuidados, amados. Como criar laços de empatia se não exercitarmos desta maneira? Como aprender a ceder sem treinar as saídas do centro do mundo?

Por isso digo que a maternidade vai além de tudo o que conhecemos sobre amor. De tão intensa e profunda, essa nova prática nos rouba de nós mesmas e só nos devolve quando conseguimos encontrar um caminho equilibrado para o meio termo entre “quem eu era antes de te conhecer” e “quem me tornei porque você existe”.

Não é raro mulheres entrarem em crise existencial porque percebem que perderam o foco da própria vida depois que os peitos se encheram de leite ou que o primeiro e último pensamento do dia está relacionado à cria. De todas as obras de arte que fizemos, um filho é a mais perfeita!

Então, quando penso sobre o que vou ser daqui 5, 10, 15, 20, 30, 40 anos, não hesito pensar que dizer ‘mãe da Gabi’ como resposta coringa que continuará fazendo minha vida valer à pena. No entanto, haverá sempre um algo a mais para não sofrer com a síndrome do ninho vazio ou alguma nova disfuncionalidade batizada com um nome da moda para justificar a ausência de nós mesmas em sonhos e realizações.

Filhos vão e vêm, experimentam e voltam. Aprendem a viver assim. Nosso lar é o primeiro laboratório, porém com a proposta do benefício amoroso. Precisamos treinar pensamentos e reações de emoções em família para que a base de suporte se torne consistente em todas as provas da vida.

Lembra dos truques do ego que contei início deste artigo? É como se um neném saísse de dentro da cartola, rasgando sua agenda de prioridades e consumindo todas as reservas de energia física, mental, emocional, financeira que você (achava que) tinha sob controle. Bagunça simplesmente tudo, por mais planejada que tenha sido a chegada desta criança ao mundo. Você tem altos e baixos, perde as linhas do corpo definido por toda a vida esculpida em exercícios, pra descobrir que músculos têm memória celular e logo se aquietam. Mas o coração (agora) multiplicado será a eterna mágica sem explicação.

Truque do ego resta para quem não quer filhos, para aqueles que acreditam na ilusão de que precisam manter tudo sob controle… Filhos iniciam maravilhosas fantasias na nossa história. Por eles somos ainda melhores. Muito mais que nutrir os sonhos da minha pequena menina, serei sempre aquela que estará com o coração na mão, pintando um mundo melhor, criando realidades mais bonitas, mostrando caminhos e planejando nossos passatempos, comidinhas e receitas de bem-estar em família. Porque o sorriso dela enfeita nosso mundo. Esse é o milagre da grande transformação.

Claudia Queiroz é jornalista.