Na semana que passou, o bilionário Bernard Arnault, terceiro homem mais rico do mundo, e CEO do grupo LVMH-Louis Vuitton Möet Henessy trocou calorosos cumprimentos com o controverso presidente Donald Trump por ocasião da inauguração de uma unidade de produção das icônicas bolsas Louis Vuitton.

A fábrica, localizada a sudoeste da cidade de Dallas, Texas, foi batizada de Rochambeau Ranch em homenagem ao militar de alta patente, Marechal Jean-Baptiste Donatien de Vimeur, Conde de Rochambeau — nobre general francês que desempenhou um papel importante em ajudar as treze colônias a ganhar a independência durante a Revolução Americana contra os britânicos. Estima-se que o empreendimento tenha custado U$ 50 milhões, e pretende gerar pouco mil vagas de emprego nos próximos anos.

Embora muitos não saibam, não será a primeira fábrica da marca de luxo em território americano: há vinte e cinco anos já existem duas oficinas em San Dimas, California que fabricam peças da marca com a etiqueta “made in USA”, e também realizam consertos das malas de viagem. O projeto, segundo Arnault, vem ao encontro de aspirações do presidente norte-americano de trazer de volta os empregos americanos perdidos por conta da globalização. À guisa de exemplo, dados estatísticos apontam que a indústria têxtil norte-americana tem hoje 580 mil trabalhadores, contra 1.8 milhão no final dos anos 90, quando a produção migrou em massa para a Ásia.

A ideia da etiqueta “made in USA” afixada em um produto Louis Vuitton, a marca de luxo mais vendida no mundo, e detentora da maior tradição em “maroquinerie” – a arte do trabalho em couro – é atraente também por outro motivo, fruto do temor de Bernard Arnault sobre uma futura mudança da geopolítica do mundo a partir da ascensão de  Mr. Trump à presidência do país. Em razão desse prognóstico, M. Arnault apressou-se em entrar conversações próximas com o presidente já no início de 2017.

De fato, muito embora os executivos envolvidos no projeto afirmem que a recém-inaugurada unidade se destinaria apenas a atender a forte demanda interna norte-americana, a verdade é que, a guerra comercial iniciada recentemente contra o resto do mundo pelo mandatário daquele país pode resultar em aumentos de tarifas e sobretaxas de importação de produtos europeus, encarecendo sobremaneira mercadorias cujo preço já é justificadamente  diferenciado. No caso da Louis Vuitton, as peças são handmade, e necessitam no mínimo doze horas para a fabricação de uma bolsa. Vários meses para uma mala de viagem. Os artigos Louis Vuitton são resultado de um savoir-faire de séculos, técnicas, segredos e saberes transmitidos de pais para filhos ao longo de anos, exigindo meses, até mesmo anos de treinamento e capacitação para a formação dos artesãos que trabalham em cada fase da cadeia de produção.

Porém, em um cenário de pleno emprego como é o atual nos Estados Unidos, com taxas de ocupação abaixo dos 4%, encontrar trabalhadores dispostos a se submeter a extenuantes horas em longos treinamentos para executar uma atividade que, por mais diferenciada que seja, não deixa de ser classificada como trabalho braçal, será um enorme desafio, em especial em uma cultura que não recompensa socialmente o trabalho físico. Até o presente momento, a unidade iniciou suas atividades com apenas 150 (cento e cinquenta) trabalhadores, para uma capacidade quase dez vezes maior.

Fica claro, pois, que a estratégia não se destina a “trazer de volta os empregos perdidos”, mas, sim proteger-se comercialmente de uma eventual guerra de tarifas com a Europa. Bien joué, Monsieur Arnault.

Ana Fábia R. de Oliveira F. Martins – Advogada, especialista em Direito e Negócios Internacionais.